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10 outubro 2011

Correio do Povo - 03 de abril de 1909


Correio do Povo do dia 3 de abril de 1909 noticiava: 


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Companhia Telefônica Rio-Grandense
Companhia Telephonica – A Companhia Telephonica Rio-Grandense (empreza Ganzo, Durruty & C.) começou, hontem, a distribuir folhetos contendo a lista dos seus assignantes e as instrucções para o uso de seus aparelhos. Já que a nova empreza entra em funccionamento regular, devemos advertil-a de que precisa de organizar o seu serviço, de modo a poder elle preencher os seus fins, o que agora não succede. Ao contrário, tal como está, esse serviço chega a tornar-se até prejudicial, como ainda hontem tivemos occasião de observar mesmo comnosco. As ligações são dadas com extraordinaria demora, e, não raro, cortadas inesperadamente, quando os assignantes ainda estão se communicando; os chamados, para o centro, não são attendidos; as operadoras começam, outras vezes, a importunar os assignantes com chamados em falso, etc. Esperamos que tudo isso seja melhorado, em a nova phase que a empreza vae iniciar. 




Texto retirado do site: http://contextopolitico.blogspot.com/2009_04_03_archive.html

Impressões do Brazil no Seculo Vinte

Impressões do Brazil no Seculo Vinte - [41-D]

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Clique nesta imagem para ir ao índice da obraAo longo dos séculos, as povoações se transformam, vão se adaptando às novas condições e necessidades de vida, perdem e ganham características, crescem ou ficam estagnadas conforme as mudanças econômicas, políticas, culturais, sociais. Artistas, fotógrafos e pesquisadores captam instantes da vida, que ajudam a entender como ela era então.
Um volume precioso para se avaliar as condições do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial é a publicação Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd., com 1.080 páginas, mantida no Arquivo Histórico de Cubatão/SP. A obra teve como diretor principal Reginald Lloyd, participando os editores ingleses W. Feldwick (Londres) e L. T. Delaney (Rio de Janeiro); o editor brasileiro Joaquim Eulalio e o historiador londrino Arnold Wright. Ricamente ilustrado (embora não identificando os autores das imagens), o trabalho é a seguir reproduzido, em suas páginas 821 a 828, referentes ao Estado (ortografia atualizada nesta transcrição):




Companhia Telefônica Rio-Grandense - O serviço de comunicações telefônicas no estado do Rio Grande do Sul foi iniciado pela Empresa Industrial Construtora do Rio Grande do Sul, proprietária dos centros telefônicos estabelecidos nas cidades de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, e bem assim dos privilégios concedidos pelas extintas Câmaras Municipais das três cidades, constantes dos contratos que adquiriu. O da cidade de Porto Alegre é datado de 8 de março de 1884 e o da do Rio Grande de 27 de maio de 1885, ambos por 15 anos; e o da de Pelotas é datado de 13 de outubro de 1886, por dez anos. Todos esses privilégios foram aprovados pela Assembléia Legislativa da antiga província.
Para comprar o acervo daquela empresa, organizou-se em Pelotas, a 24 de maio de 1895, uma sociedade anônima de responsabilidade limitada, sob a denominação de Empresa União Telefônica, com o capital de Rs. 500:000$000, que foi, mais tarde, elevado a Rs. 600:000$000. Esta sociedade continuou explorando, sem concorrentes, os serviços de sua antecessora nas três cidades acima mencionadas, até que, tendo já há muito expirado o prazo do privilégio que possuía, o coronel Juan Ganzo Fernandez, proprietário de diversos centros telefônicos em várias localidades do estado, obteve em 1906, da Intendência Municipal de Pelotas e da de Rio Grande, concessões para instalar centros telefônicos nessas duas localidades.
Estabelecidos tais centros e após um ano de funcionamento, solicitou a Sociedade concessão para instalar um novo centro na capital do estado. Havendo o coronel Ganzo Fernandez, para continuação desse e outros negócios, organizado a firma Ganzo, Durruty & Cia., iniciou, em 1908, as obras do centro telefônico de Porto Alegre, para as quais, no ano anterior, obtivera concessão do governo desse município.
Em maio desse ano, incorporou-se à mesma firma a Companhia Telefônica Rio-Grandense, que em 15 do mês seguinte ficou definitivamente instalada, e tomou a si todos os negócios da seção de telefones pertencentes a Ganzo, Durruty & Cia. O capital da nova companhia, em seu início, era de Rs.1.100:000$000, quantia que, em virtude de resolução da assembléia geral realizada em 15 de abril do corrente ano, foi aumentada para Rs. 1.300:000$000.
Para fazer face às despesas resultantes do acréscimo de suas instalações primitivas, contraiu ela um empréstimo de Rs. 500:000$000, em obrigações ao portador, ao juro de 8%. Tendo posteriormente feito aquisição da Empresa União Telefônica, emitiu um segundo empréstimo de Rs. 800:000$000 nas condições do precedente.
Com a realização dessa compra, está a Companhia Telefônica Rio-Grandense unificando o serviço nas localidades em que existem dois centros telefônicos, de forma que, presentemente, estão funcionando os seguintes, de acordo com diversos privilégios e concessões municipais: Porto Alegre, Pedras Bancas, Barra do Ribeiro, Itapoã, Belém, Tristeza, Canoas, Pelotas, Piratini, Monte Bonito, Cascata, Capão do Leão, Rio Grande, Povo Novo, Quinta, Ilha dos Marinheiros, Ilha do Leopídio, Cassino, São Leopoldo, Retiro, Nova Hamburgo, Santa Cruz, Vila Tereza, Rio Pardinho, Ferraz, São João do Montenegro, São Sebastião do Caí e São Lourenço.
Também de conformidade com as concessões que lhe foram dadas pelo governo do estado do Rio Grande do Sul, fez a companhia construir e estão funcionando as seguintes linhas intermunicipais: Porto Alegre e São Leopoldo, 6 linhas, 33 quilômetros cada uma; Porto Alegre a Canoas, 2 linhas, 14 quilômetros cada uma; São Leopoldo a Caí e Montenegro, 2 linhas, 44 quilômetros cada uma; Pelotas a Rio Grande, 10 linhas, 65 quilômetros cada uma; Pelotas a Piratini, 1 linha, 63 quilômetros; Pelotas a São Lourenço, 5 linhas, 90 quilômetros cada uma; Santa Cruz a Venâncio Aires, 1 linha, 40 quilômetros; Santa Cruz a Poço do Sobrado, 1 linha, 20 quilômetros; Pelotas a Capão do Leão, 4 linhas, 17 quilômetros cada uma.
O centro de Porto Alegre, a subestação de Navegantes, nesta cidade, e os de Pelotas, Rio Grande, São Sebastião e Monte Bonito estão instalados em prédios da companhia, tendo sido o primeiro deles especialmente construído para esse fim e os demais convenientemente adaptados à natureza de tal serviço.
Na central que a companhia possui em Porto Alegre, funciona uma mesa múltipla, Siemens & Halske, de bateria central, com capacidade para 10.000 assinantes. Existe um distribuidor primário, de ferro, também para 10.000 subscritores; 2 baterias de 12 acumuladores cada uma; e diversos dínamos, funcionando junto a motores, para carregar baterias e produção de luz.
Desta central, partem 25 cabos subterrâneos, os quais, por sua vez, na área da cidade em que a população é mais densa e em lugares mais adequados, se subdividem em outros, numa extensão de 42 quilômetros.
Na central de Pelotas, funciona uma mesa Siemens & Halske, a indutor múltiplo, de linhas duplas, para 1.600 subscritores e com capacidade para 3.000 linhas; na do Rio Grande, uma mesa Siemens & Halske, a indutor múltiplo, de linhas duplas, para 1.200 subscritores, com capacidade para 2.000 linhas; nas de São Lourenço, Santa Cruz, Montenegro, São Leopoldo, Ilha dos Marinheiros e Nova Hamburgo, mesas Standart, de 100 linhas duplas; nas do Capão do Leão, Monte Bonito e Povo Novo, mesas Standart, de 50 linhas; nas de Quinta e Cassino, mesas de 30 linhas; nas de Tristeza, Belém e Canoas, mesas de 25 linhas; nas de Vila Tereza e Barra do Ribeiro, comutadores de 20 linhas; nas de Itapoã e Cascata, comutadores de 12 linhas; nas de Rio Pardinho e Ferraz, comutadores de 10 linhas.
A companhia, em sua maior parte, usa os aparelhos J. Berliner, de Hanover; L. M. Ericson & Co., de Estocolmo; Western Electric Co. e Kellog Switchboard & Supply Co., de Chicago.
















Artigo retirado do site 
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g41d.htm

28 setembro 2010

O Telefone em Porto Alegre, Rio Grande do Sul

O TELEFONE EM PORTO ALEGRE

A história da telefonia em Porto Alegre se inicia em 1882 quando a Companhia Telefonica do Brasil, que tinha sua sede na cidade do Rio de Janeiro, recebe uma carta imperial de permissão para explorar os serviços de telefone nas cidades de Petrópolis(RJ), Maceió, Salvador, Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Entretanto, apesar da permissão imperial, a companhia não executou o seu projeto e a telefonia não foi implantada, Dois anos mais tarde(1884), os Srs. Luiz Augusto Ferreira de Almeida e José Joaquim de Carvalho Bastos, receberam o privilégio imperial para exploração dos serviços de telefonia em Porto Alegre e propuseram à Camara Municipal a implantação dos serviços. Em março de 1884 os vereadores aprovaram o pedido e solicitaram a homologação do contrato junto a Assembléia Provincial que imediatamente sancionou a contratação. Foi então que em 09 de setembro de 1886, a empresa Companhia União Telefonica notifica a Câmara de que está em condições de iniciar os serviços. A referida companhia se instalou em um velho casarão colonial que existia na esquina da Rua Gal. Camara com a Riachuelo no local onde em 1909 seria erguido o prédio da atual Biblioteca Pública. No dia da inauguração a companhia já contava com 72 assinantes. A inauguração oficial dos serviços ocorreu no dia 15 de setembro de 1886 com a presença, entre outras autoridades, do Presidente da Província que na época era o Marechal Deodoro da Fonseca. Foi ele o primeiro a realizar uma chamada telefonica em Porto Alegre. No final daquele ano, ao deixar a Presidencia da Província, Deodoro citou em seu relatório que a Companhia União Telefonica já contava com 135 assinantes, ou seja quase o dobro do que tinha no dia da inauguração. Este número foi crescendo rapidamente e ao final do século XIX já era de 500 assinantes.
Os serviços da Companhia União Telefonica entretanto, não pareciam satisfazer plenamente os anseios da população e das autoridades. Isso se pode constatar quando logo no início do século XX, o Intendente de Porto Alegre José Montaury de Aguiar Leitão, resolve estabelecer ligação telefonica entre os distritos de Porto Alegre. Em 1903 a cidade já se achava ligada as seguintes localidades por telefonia municipal: Gravataí, Viamão,Pedras Brancas, Barra do Ribeiro, Mariana Pimentel, Belém Novo e Belém Velho.
Em 1906 as companhias de navegação e a Associação Comercial de Porto Alegre, resolvem instalar uma linha telefonica entre Belém Novo e Itapuã com a finalidade de registrar e controlar a passagem de navios na Lagoa dos Patos.
O ano de 1907 marcou o início da modernização do sistema de telefonia em Porto Alegre e também em algumas cidades do Rio Grande do Sul. Foi fundada a Companhia Telefonica Riograndense que tinha como sócio majoritário o Coronel Juan Ganzo Fernandez,nascido nas Ilhas Canárias, radicado desde muito jovem no Uruguai e que veio para Porto Alegre onde, juntamente com outros empresários, se inciou no ramo da telefonia. A Companhia Telefonica Riograndense adquiriu todo o acervo da Companhia União Telefonica e tinha a sua central instalada à rua Marechal Floriano próxima da esquina com a antiga rua 2 de fevereiro que mais tarde, em 1937, seria alargada para dar origem a atual Salgado Filho.
A empresa de Juan Ganzo Fernandez implantou tecnologia de ponta para a época e em 19 de abril de 1922 já instalava telefones automáticos em Porto Alegre. Nas Américas, somente Chicago e Nova York tinham este tipo de telefonia, logo, Porto Alegre se tornou a primeira cidade brasileira a contar com telefones automáticos. A primeira central deste tipo suportava 300 assinantes.
O Coronel Juan Ganzo Fernandez vendeu o controle de sua empresa para a IT&T ( International Telegraph and Telephone) em 1927 e mudou-se para Santa Catarina onde lá fundou a Companhia Telefonica Catarinense.
Em dezembro de 1962, no “apagar das luzes” de seu governo, depois de muitas discussões dentro e fora do Brasil, o Governador do Estado Leonel de Moura Brizola decreta a encampação da Companhia Telefonica Riograndense e abre caminho para a criação da CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações.

A implantação da telefonia na cidade de Pelotas: a criação CTMR
O sistema de comunicação despertava interesses de muitas pessoas e em 1884, foi fundado a empresa Correio Mercantil, por Antonio Joaquim Dias, que obteve a permissão de oferecer ao público e instalar linhas telefônicas, campainhas elétricas, para-raios e porta-vozes. Frente a esses benefícios muitos proprietários de empresas comerciais vão se conectar com a empresa do Correio Mercantil, através de uma linha telefonica. Pois, por telefone chegavam todas as novidades e notícias do porto da cidade. O Correio Mercantil criou uma coluna diária, chamada Telephones que através dela tinham a possibilidade de saber da reação da população com relação aos telefones e sobre seu uso, além de notícias de concessões e instalações de outras companhias telefonicas.
Os interesses do proprietário do Correio Mercantil, entre o período de 1884 a 1888, ficaram evidentes, e este jornal publicou diversos artigos sobre a importancia e os benefícios que teriam as pessoas da cidade com um centro telefônico. Nesses artigos publicavam o que outros jornais estavam escrevendo sobre tal inovação e as condições de pagamento de cada assinante. Os conflitos sobre os preços e as taxas de pagamento de cada assinante geraram muitas discussões na cidade e o proprietário do jornal utilizou a seguinte estratégia, lançando uma nota em que falava dos preços cobrados em Paris, Buenos Aires, Montevidéo e Rio de Janeiro, reforçando que o valor cobrado não era excessivo. Diziam que para tal inovação e melhoramento era preciso que tivessem assinantes.
A não instalação do centro telefônico por parte do proprietário do Correio Mercantil esbarrava, sobretudo, na legislação da Repartição Geral dos Telegráfos, que afirmava que era de competência exclusiva do governo imperial a concessão para o estabelecimento de linhas telefônicas. Ressaltando ainda que as linhas telefônicas que não tivessem o caráter geral e forem destinadas a serviços particulares caberia às assembléias provinciais conceder tal privilégio. Neste sentido, o proprietário do Correio Mercantil não conseguiu instalar um centro telefônico sólido.
É importante assinalar que no ano de 1888, instalou-se na cidade o Centro Telephonico Pelotense, que era mantido por José Bernadino de Souza. O mesmo conseguiu uma cláusula para explorar os serviços de linhas telefônicas por dez anos. Um dos aspectos mais importantes neste centro telefonico é que o governo provincial autorizou a camara municipal a conceder tal prerrogativa. As condições eram que ao instalar linhas telefoônicas o centro telefonico estivesse instalado na camara municipal e que proibisse qualquer empresa ou particulares de instalar novas linhas na cidade.
O governo imperial, através do engenheiro-chefe da Repartição Geral de Telégrafos escreveu um artigo que foi publicado no Correio Mercantil falando que era "um absurdo esse boicote" com relação as instalações de novas linhas telefonicas, pois a Repartição Geral de Telegráfos poderia muito bem instalar seus fios telefônicos nos postes telegráficos. O missivista termina seu artigo dizendo que poderia o Sr. José Bernadino de Souza ter influencias e conhecimentos dentro do governo provincial para ter tais concessões, mas que ele trabalhava com dignidade, transparencia, sem privilégios e lutava pelos interesses da empresa que dirigia.
Todos os conflitos existentes na concessão de linhas telefônicas na cidade de Pelotas, recebem um novo trato com a nova constituição que normatizou alguns aspectos essenciais no que se refere as redes telegráficas e telefonicas.
Pouco depois da mudança de legislação o sistema de telefonia na cidade passou a pertencer a Companhia Industrial e Construtora do Rio Grande do Sul, com sede administrativa na cidade de Porto Alegre (capital do Estado). As notícias sobre telefones são escassas pois, sua sede não estava na cidade de Pelotas e a imprensa local não publicava quase nada sobre esta companhia.
No ano de 1895, o governo do Estado percebendo a ineficiência da companhia que atuava em Pelotas, concedeu o direito de exploração do serviço telefônico para a Empreza União Telephonica. Essa concessão era para explorar os serviços em linhas telefonicas também nas cidades de Rio Grande e Porto Alegre. A companhia anterior concedeu todos os materiais de manutenção, assim como as propriedades e os trabalhadores. A nova empresa passaria a ter sede na cidade de Pelotas e também a diretoria era composta por pessoas da cidade. Com o passar dos anos a Empreza União Telephonica passa por uma série crise financeira e consequentemente não conseguiu investir em novas tecnologias. Com a criação da Companhia Telefonica Riograndense, em 1908, muitos proprietários que possuiam telefones da Empreza União Telephonica mudaram para a Companhia Telefonica Riograndense que apresentou novas tabelas de preços e uma proposta de melhores serviços. De todas as maneiras, os diretores da União Telephonica convocaram uma reunião para sanear os problemas da empresa, como uma última tentativa de recuperar o prestígio da mesma. Em reunião descobriram que os estatutos estavam ultrapassados e que no período de sua existência verificou-se uma série de fraudes e erros no livro de escrituras. A única solução possível foi fusionar-se com a Companhia Telefonica Riograndense.
A atuação da Companhia Telefonica Riograndense na cidade foi de um primeiro momento satisfatória para os que utilizavam tal serviço. Pois a empresa de Juan Ganzo Fernandes representava os interesses do estado e segundo os proprietários de telefones eram bem atendidos pela nova empresa. O mais interessante é que, em publicação nos jornais da cidade os proprietários notificavam a mudança para a empresa Ganzo, alegando o seviço eficiente da empresa. Em várias notas - a pedido da empresa - notificavam os nomes dos proprietários e o tipo de profissão de cada um deles, em sua maioria comerciantes, profissionais liberais e industriais.
Com o passar dos anos, a Companhia Telefonica Riograndense normatizou seus serviços fixando os preços dos serviços da empresa. Com a constante elevação das tarifas, muitos proprietários começam a perceber que os serviços prestados a cidade eram deficientes, pois alegavam que as normas e preços de tarifa vinham de Porto Alegre e era incompreensível que as cidades tivessem a mesma tarifa. Pois a Companhia Telefonica Riograndense não tinha o capital da cidade e alegavam que todos os benefícios com relação ao pagamento de taxas eram revertidos para outros locais e pouco ficava na cidade de Pelotas. Descontentes com os serviços prestados pela empresa de telefonia existente, os principais sócios da Associação Comercial resolveram, após várias reuniões e grandes debates, fundar sua própria companhia telefonica, formada a partir de capital pelotense.
Segundo o jornal Diário Popular, o descontentamento dos proprietários vinha desde agosto de 1917, quando ocorreram várias reuniões com o proprietário da Companhia Telefonica Riograndense. Em dezembro de 1918, a Companhia Telefônica Riograndense distribuiu circular para seus assinantes com nova tabela de preços, causando grande repercussão entre as pessoas e principalmente os comerciantes da cidade. Imediatamente os diretores da Associação Comercial convocaram uma reunião extraordinária.
Em reunião na sede da Associação Comercial, o Coronel Alberto Rosa, diretor do Banco Pelotense e ex diretor da Associação Comercial, afirmou que a única solução para melhorar os serviços telefonicos da cidade era a fundação de uma companhia telefonica com capital pelotense. A Associação Comercial de Pelotas, por meio de seus sócios, seria a principal incorporadora da nova companhia telefonica.
Assim, nasceu em 1919, a Companhia Telefonica Melhoramento e Resistencia (CTMR), cujos objetivos eram: melhorar os serviços e resistir ao capital que não fosse da cidade. O processo de implantação da CTMR seguiu a legislação das sociedades anonimas e aconteceu rapidamente. Em menos de um mes a Associação Comercial de Pelotas declarou ter depositado no Banco do Brasil a importancia de quarenta contos de réis, correspondente a dez por cento do capital declarado.
Após sua fundação, a CTMR pretendia explorar a indústria telefonica na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul e onde mais lhe conviesse. Iniciou-se assim, uma nova fase de expansão da telefonia. Os diretores da CTMR contrataram ainda, em 1919, a companhía norte-americana Western Campany e os estudos técnicos foram realizados no escritório da companhia localizado em Buenos Aires.
Com o sucesso da expansão da rede telefonica na área central da cidade de Pelotas, seus diretores resolveram estender os serviços para a cidade de Rio Grande (vizinha de Pelotas). Mas, não conseguiram o intento, pois a IT&T (International Telephone and Telegraph), que era a operadora da Companhia Telefonica Riograndense havia incorporado também os serviços daquela cidade. Aquela, através da Companhia Telefonica Riograndense vai tentar diversas vezes comprar as ações da CTMR e não conseguindo seu intento resolveu bloquear o acesso ao tráfego interurbano. Dessa forma os serviços telefonicos eram prestados por duas empresas telefonicas. Durante algum tempo quem precisava comunicar-se com outras cidades, utilizava o telefone da Companhia Telefônica Riograndense. Por isso muitas empresas comerciais e industriais possuíam dois telefones, um de cada companhia.
Podemos perceber que a partir de 1919, a Companhia Telefonica Melhoramento e Resistencia resistiu a todas as pressões para que suas ações não passassem para o capital estrangeiro. Aplicou todos os recursos em ampliação da rede telefonica levando também as suas linhas para os lugares mais afastados do município. Criou os centros telefonicos na zona rural do município como: Capão do Leão, Hydráulica, Retiro, Monte Bonito, Cascata e Santo Amor. Locais estes onde os acionistas da CTMR, na sua maioria, possuíam suas casas de verão ou eram proprietários de terras. Em todos esses centros, a Prefeitura Municipal possuia um escritório que estava conectado por linha telefonica.
Mesmo com as dificuldades burocráticas e concorrenciais em expandir linhas telefônicas para outras cidades, observamos o crescimento de linhas telefônicas: 2.121 em 1923, 2.475 linhas particulares em 1926, sendo que 57 telefones pertenciam as repartições públicas, além de 12 telefones privativos da empresa. Na década de 1930, a Companhia possuía 2.830 aparelhos colocados nos municípios de Pelotas e região.
Neste sentido, a expansão da rede telefonica, nas primeiras décadas do século XX em Pelotas, demonstrava todo o dinamismo da sua economia, sendo necessário investir em infra-estrutura básica. Pois, é interessante observar que os acionistas eram empresários, para os quais a nova companhia telefônica traria grandes benefícios para seus negócios e precisavam, portanto, de um serviço eficiente, para reduzir as distâncias e ter maior lucratividade nos seus empreendimentos. 




Escrito por Ronaldo Marcos Bastos

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil
Médico, formado pela antiga Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre. Professor Universitário de vários cursos de medicina, desde 1971 e pesquisador fotográfico há mais de 45 anos. Atualmente, participa como colunista do programa Câmera 2, da TV Pampa - Canal 4, apresentando o quadro "Porto Alegre uma História Fotográfica", quartas-feiras às 18h35.

20 março 2009

Túnel do Tempo - A Serra Começa a Falar (RGS)


Mais uma vez tenho a grata surpresa de receber contribuições ao site da família Ganzo.
Novamente quem nos assiste é o primo João Francisco Ganzo Fernandez Barcellos de Porto Alegre. Aliás, vejo que o povo gaúcho preza por sua história, pois, para meu deleite, volta e meia trás estampado em seus jornais, matérias sobre a Companhia Telefônica Rio Grandense.
Primo, te agradeço de coração por mais esta contribuição.








13 dezembro 2008

Personalidades Rio-Grandenses - Cel. Juan Ganzo Fernandez

Recebi esta tarde da senhora Kátia Madruga Aurélio de Porto Alegre, estas cópias de jornais gaúchos que tratam da personalidade de meu bisavô. Estas cópias fazem parte de um conjunto de documentos que me enviou anteriormente, e que tratam do processo que originou a homenagem a Juan Ganzo Fernandez, dando origem a Avenida Ganzo em Porto Alegre.
Kátia, muito obrigado por seu interesse e ajuda.


Juan Ganzo Fernandez, durante sua longa e ativa vida, dedicou-se com singular constância aos serviços de energia e comunicações, os quais, constituiram a grande paixão de sua existência.
Seu extraordinário espírito de iniciativa, que iria acompanhá-lo até a data de sua morte muito cedo se manifestou, pois já aos dezessete anos instalava para-raios nas fazendas do Uruguai e, ainda com essa idade, inaugura, na cidade uruguaia de San José, o seu primeiro centro telefônico. A seguir, estabelece novas centrais em Canelones, Florida, Santa Lucia, Melo e Serro Largo, ligando-os a Montevidéu. Em 1891 contraiu núpcias com D. Clorinda Garicochea de Herrera.
Em 1892 inaugurou a luz elétrica em San José, fato este que representou um grande marco de progresso na vida daquela cidade. Em 1900, cruza a fronteira a pedido do Dr. Carlos Barbosa Gonçalves e estabelece linhas t6elefônicas em Jaguarão, criando comunicação internacional com a cidade de Artigas, em 1901, funda em Bagé a Companhia Telefônica Bagéense, estendendo suas linhas até a cidade uruguaia de Melo e ao município de Don Pedrito.
Por ocasião da revolução que se deflagrou no Uruguai em 1904, ocupou o posto de Coronel e nesse ano vende suas centrais telefônicas para financiar seu partido na revolução.
A seguir, passa seus serviços às cidades de Rio Grande, Pelotas, Santa Cruz, Cruz Alta e muitas outras cidades do Estado. Importante melhoramento introduz nas comunicações entre Pelotas e Rio Grande, ligando-as por seis linhas diretas, uma vez que há vinte e seis anos a União Telefônica o fazia com apenas uma linha. Em princípio de 1908, fundou em Porto Alegre a Companhia Rio Grandense e em 1909 instala nesta cidade os primeiros serviços telefônicos com o tipo Bateria Central, dotando a cidade de ótima rêde de cabos aéreos e subterrâneos, a última palavra, para a época, na técnica de telefonia, pelo que ficou sendo Porto Alegre a quinta cidade do mundo e a primeira da América do Sul a dispor de semelhantes serviços.
Em 1912, após haver a Companhia Telefônica Rio Grandense adquirido a Companhia União Telefônica de Pelotas, é inaugurada a primeira linha de Longa Distância a explorar também os serviços telegráficos.
Em 1922 um fato memorável foi assinalado na vida da Companhia: inaugurou-se a Central Automática de Porto Alegre, tornando-se esta cidade a primeira do Brasil e a terceira da América do Sul a ter telefones automáticos.
Em 1925 dota a cidade de Rio Grande dos mesmos serviços e torna-se esta a segunda cidade do Brasil e a quarta da América do Sul a possuir mencionados serviços.
Entre os anos de 1912 a 1918, dedicou-se o Cel. Ganzo a um empreendimento de natureza diferente e que iria ter grande repercussão na vida de Porto Alegre daquela época _ tratou-se do Jardim Zoológico Vila Diamela, localizado em uma ampla propriedade, tão estranha ao seu trabalho habitual no setor das comunicações, entregou-se o Cel. Ganzo com o entusiasmo e o otimismo que sempre caracterizaram suas iniciativas e procurou dotar Porto Alegre de um centro de diversões que saudosa e viva lembrança deixou nos corações dos porto-alegrenses daquela segunda década de 1900. Hoje, no local do antigo Jardim Zoológico, cuja área foi loteada, está situado o magnífico e belo bairro residêncial Parque Ganzo.
Em 1927, após transacionar com a Intenational Telephone & Telegraph de New York, a maioria das ações da Companhia Telefônica Rio Grandense, obteve a concessão para explorar os serviços telefônicos no estado de Santa Catarina e funda a Companhia Telefônica Catarinense.
Mas não apenas aos serviços telefônicos dedicou-se o Cel. Ganzo, também os serviços de energia atrairam seu interesse e possuiu no Rio Grande do Sul as Usinas de Cachoeira do Sul, Caxias, Livramento e Bagé, havendo sido o fundador da Companhia de Usinas Elétricas Rio Grandense.
Seu espírito ativo e empreendedor levou-o também a participar de outras iniciativas e foi um dos fundadores da Refinaria Ypiranga de Rio Grandense.
Foi à testa da Companhia Telefônica catarinense, o último de seus empreendimentos, que a morte veio a encontrá-lo no dia 2 de abril de 1957 e até esse dia sua capacidade de iniciativa e trabalho não sofreram diminuição alguma. Faleceu súbita porém tranquilamente, e sua dinâmica existência extinguiu-se em apenas uma hora, sendo a morte tão benigna para ele, quanto bondoso para com seus semelhantes foi o Cel. Ganzo em sua vida.

Dante PIANTA
"Diário de Notícias" de 29/09/1961

29 outubro 2008

Telephone Ganzo - Lembranças



" Mauricio Ganzo, sou João Francisco Ganzo filho de Lótus Ganzo. Te envio uma foto a título de curiosidade que achei no arquivo da Universidade Luterana do Brasil, fotografia do ano de 1908 que esta com selo de  identificação, com estúdio fotográfico e endereço de Porto Alegre, mas o que me chamou a atenção foi o telefone Ganzo.
Obs: A pessoa da foto não sei te dizer quem seria . 
                                              Um abraço e sou um grande admirador do blog da Família Ganzo."

Obs. Creio que, ao fundar sua Companhia Telefônica em 1908, em Porto Alegre, havia algumas outras pequenas Companhias atuando também na mesma cidade. Para diferenciar os telefones a discar, seria necessário saber de qual Companhia era o número, pois havia a necessidade de solicitar a telefonista a ligação entre dois aparelhos da mesma Companhia.

26 setembro 2008

A História do Telefone em Santa Catarina - Conclusão


Inauguração da Fábrica de equipamentos telefônicos ERICSSON
São José dos Campos, 5 de novembro de 1955
Diretor da Ericsson, Juan Ganzo Fernandez, S. Taalberg, Welgten e Clausen


Aqui termino de digitar esta brilhante exposição sobre a telefonia no Estado de Santa Catarina, feita por Claudia Gomes de Albuquerque, em seu trabalho de Conclusão do Curso de História da UFSC em 1986.
Interessante notar que algo tão valioso históricamente, não esteja sendo divulgado. Antes de encontrar este material, penei em localizar quaisquer dados sobre a telefonia em Santa Catarina. Parece mentira, mas um feito de tamanha importância para as comunicações no Estado de Santa Catarina, foi abandonado... esquecido numa prateleira de biblioteca.
Há de se lembrar dignamente do Sr. Juan Ganzo Fernandez... um pioneiro em tantos empreendimentos... Também de seu filho, Juan Carlos Ganzo Fernandez, que foi o grande administrador da telefônica aqui em Santa Catarina... de seus irmãos... Juan Edson Ganzo Fernandez, Ramirez Ganzo Fernandez... e tantos outros colaboradores, entre eles Adám Ganzo Duque, que, com sua coragem e obstinação, abandonaram suas origens, suas famílias, para desbravar um novo desafio, num país ou estado desconhecido. 
Lograram êxito... trabalharam muito para que Florianópolis e todo o Estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul fizessem parte do mundo moderno... mas pagaram um alto preço por suas ousadias. 
Hoje, a família Ganzo é esparssa... estamos divididos entre Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná... e não nos conhecemos... 
Este é o preço pago pelos pioneiros da Telefonia, Petróleo, Rádio, etc. Abdicaram dos seus para ajudar a tantos outros. Mas amaram o que fizeram... tenho certeza, não se arrependeram.
O maior presente que estes empreendedores nos deram foi poder "falar", falar com o mundo!
E por isso, hoje, na era da internet, precisamos divulgar suas histórias. Não é justo que, tamanho sacrifício seja esquecido da memória do povo catarinense e gaúcho.




CONCLUSÃO


O desenvolvimento da telefonia em Santa Catarina até o surgimento da Companhia Telefônica Catarinense foi mínimo e precário. Uma das razões disso se deve ao pouco incentivo às iniciativas privadas por parte do Governo, que não tinha claro as vantagens do emprego do telefone nos assuntos administrativos, no comércio, na integração territorial e na indústria; além de que nem todos tinham condições financeiras de usufruir do serviço telefônico, o que fazia do telefone um símbolo de status social daqueles que o possuiam. A mudança de visão do Governo passou a mudar só em 1927, quando trouxe para Santa Catarina o Coronel Ganzo Fernandez, um dos melhores técnicos da época no Brasil.

O pioneirismo do Cel. Ganzo, em estender linhas telefônicas por grande parte do território catarinense, em implantar rêdes em várias localidades e em modernizar o sistema, tudo com seus próprios recursos, efetivou o serviço telefônico em santa Catarina e proporcionou um novo ritmo no desenvolvimento do estado.

Com as dificuldades de aperfeiçoar e ampliar o sistema telefônico numa velocidade compatível ao desenvolvimento do estado, com a revolução de 64 e a Política de Segurança Nacional, a encampação da C.T.C. em 1969 se fazia necessária. Porém, sua importância para o estado, em 42 anos de atividade, foi incontestável.

25 setembro 2008

A História do Telefone em Santa Catarina - Final


Churrascada na Conferência de Torres, reunião entre os Governadores de RGS e SC. Juan Ganzo está a direita, e na esquerda aparecem Juan carlos Ganzo Fernandez (3º) e Adán Ganzo Duque (4º).



Introdução

O Telefone

O Telefone no Brasil

O Telefone em Santa Catarina - Parte 1

O Telefone em Santa Catarina - Parte 2


Continuação...

Um dos lemas da Companhia era "ir de encontro às necessidades de expansão do Comércio do estado em geral, tratando de estender linhas e rêdes, apesar do encarecimento de todos os materiais usados e da alta da mão-de-obra." Esta foi uma das razões que a levou, em Setembro de 1940, fazer acôrdo de tráfego mútuo com a Empresa Sul Brasileira de Eletricidades (EMPRESUL), que possuia, na época, 132,919  quilômetros de linhas e 617 aparelhos instalados, sendo, depois da C.T.C., a maior empresa do estado, para resolver o intercâmbio de ligações intermunicipais e urbanas da cidade de Joinville.

O encarecimento dos materiais, que na sua maioria eram importados, e o alto custo da mão-de-obra, não foram as únicas causas que dificultaram as atividades da Companhia. Por muitas vezes ela tinha trechos de sua rêde apresentando defeitos de comunicação por causa dos contínuos roubos de seus fios de cobre, sendo este metal o motivo da cobiça dos ladrões. Para resolver este caso, passou a usar, então, fios de aço nos trechos assaltados. Outras vezes não era só na rêde que sumiam fios de cobre, no mercado eles também faltavam. Um dos maiores problemas da Companhia, por volta dos anos 50, foram as dificuldades de conseguir licença de importação, prejudicando assim, pela falta dos equipamentos, o bom funcionamento de todo o serviço, mas eventualmente foram contornados. As tarifas telefônicas para os serviços urbanos da Capital foram motivos de um outro problema. Por muito tempo a C.T.C. pediu ao Governo que as revisasse, pois passados 30 anos, desde a assinatura do contrato, em 5 de Dezembro de 1927, as tarifas continuavam as mesmas, isto é, até 60$000 para as grandes casas de negócios e 25$000 para particulares. A resposta para a solução deste caso veio em 5 de Novembro de 1956, quando foi renovado o contrato, entre o Governo e a Companhia Telefônica Catarinense, tendo a redação da Cláusula 21ª alterada, de maneira que ficava:

"facultado à empresa concessionária dos serviços telefônicos desta Capital, a periódicamente pleitear junto ao Governo do estado de Santa Catarina, uma justa revisão das tarifas telefônicas desta Capital, para atender a necessidade de melhoramentos e expansão desses serviços, bem assim, quando ocorrer substâncial encarecimento dos materiais e da mão-de-obra."

Além de ter renovado contrato, a C.T.C. marcou sua presença na década de 50, ligando o estado diretamente com o resto do Brasil e do mundo, através da RADIONAL; e também de ter ligado, por microondas, pela primeira vez, Santa Catarina diretamente com o Rio Grande do Sul, cumprindo assim o acôrdo firmado entre os Governadores desses dois Estados na Conferência de Torres em 1956.

A C.T.C. não chegou a automatizar todo o estado, muito menos, como já vimos, de ligá-lo todo. Depois de Florianópolis ter sido a primeira do estado a receber uma central automática, somente 9 anos mais tarde, em 1939, foi instalada a segunda central em Santa Catarina, na cidade de Blumenau. A automatização ocorreu paulatinamente, sendo que em Dezembro de 1959, apenas existiam as seguintes centrais automáticas instaladas pela Companhia, que ao todo representavam um total de 8.138 aparelhos: Florianópolis, Estreito, Blumenau, Itajaí, Lages, Rio do Sul, Brusque, São Francisco do Sul, Canoinhas, Tubarão, Porto União, Mafra, Rio Negro (PR), Caçador, União da Vitória (PR), Laguna, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul, Videira, Curitibanos, Ibirama, Indaial, Tangará, Palhoça, Praia de Cabeçudas, Balneário de Camboriú, Biguaçú, Marcílio Dias, Rio Negrinho, Barra do trombudo, Joaçaba, Capinzal.
Mesa Berliner, instalada em Blumenau, 1945


Apesar de todos os esforços em manter e desenvolver o sistema telefônico, a C.T.C. estava com seus dias contados. Com a aceleração do desenvolvimento do estado, principalmente no setor econômico, se fazia necessário que as comunicações telefônicas também se aperfeiçoassem e se ampliassem na mesma intensidade, o que implicava em elevados investimentos, quase impossíveis de serem realizados pela iniciativa privada. A Companhia Telefônica Catarinense passou então a representar um entrave ao desenvolvimento de Santa Catarina, e o Governo do Estado, consciênte da importância da telefonia para a nova realidade catarinense, tomou a decisão de comprar a Companhia.

Em 25 de Janeiro de 1969, em Assembléia Geral Extraordinária, os acionistas da Companhia Telefônica Catarinense aceitaram a proposta do Estado e concordaram em vender seus bens, equipamentos e instalações em serviço.

Em 2 de Abril, o Decreto Federal nº 64.301 (D.O.U. de 07/04/69), autorizou a C.T.C. a vender seu acervo, assim como declarava caducadas as concessões outorgadas a esta Companhia tão logo se efetuasse a transferência dos seus bens ao Estado; dava ainda o prazo de 120 dias para que o Governo estadual estruturasse a empresa estatal substituta, "ao mesmo tempo em que autorizava a executar os serviços telefônicos anteriormente prestados pela C.T.C. enquanto estivesse em processo de organização a empresa estatal." Estas medidas só foram tomadas em 3 de Junho de 1969, quando do cenário catarinense desaparecia a Companhia Telefônica Catarinense, mas não seus feitos, e surgia a Companhia Catarinense de Telecomunicações (COTESC), uma empresa de economia mixta, sob a forma de sociedade anônima, criada através da Lei estadual nº 4.299, de 17 de Abril de 1969 e constituída, definitivamente, em 14 de Julho de 1969, no Governo de Ivo Silveira, que, posteriormente, em Setembro de 1974, no Governo de Colombo Salles, passou a denominar-se: Telecomunicações de Santa Catarina S.A. - TELESC.




A História do Telefone em Santa Catarina - Parte 2


Juan Carlos Ganzo Fernandez (filho do Cel. Ganzo Fernandez), diretor da C.T.C., inspecionando os postes para instalação das linhas telefônicas através do estado de Santa Catarina.


Introdução

O Telefone

O Telefone no Brasil

O Telefone em Santa Catarina - Parte 1





COMPANHIA TELEFÔNICA CATARINENSE (C.T.C.)


No dia 27 de maio de 1927, o jornal "O Estado" publicou uma pequena nota:


"A Empresa telefônica está restabelecendo as suas linhas e examinhando os apparelhos, afim de regularizar todo o serviço. É essa medida acertada, que visa satisfazer todos os assignantes, evitando reclamações."

Com a Capital do Estado sofrendo com as irregularidades do serviço da Empresa Trinks, Ehlke & Cia, bem como, todo o estado que não contava com nenhum serviço telefônico em seus municípios  e entre eles, com excessão de Blumenau e Joinville, era chegada a hora do Governo tomar providências necessárias para fazer Santa Catarina "falar".

A solução para o problema estava no estado vizinho, o Rio Grande do Sul, onde atuava, desde o começo deste século, a Companhia Telefônica Riograndense, de propriedade do Coronel Juan Ganzo Fernandez. "Empresa próspera e sólida", que dotou Porto Alegre da única central automática da América do Sul, se bem que em Rosário de Santa fé, na Argentina, também existia o serviço automático, mas bem menos aperfeiçoado; e que em julho de 1927 tinha, só naquele estado, 214 localidades unidas por telefones e 1780 empregados. Era esta Empresa com que Santa Catarina podia ter a chance de contar, com competência, tecnologia avançada e solidez econômica.

Foi a convite do Governador do Estado de Santa Catarina, Dr. Adolpho Konder, e do então Ministro da Viação, Dr. Victor Konder, que o Cel. Ganzo Fernandez decidiu vir para Santa Catarina, fixando residência em Florianópolis, de onde nunca mais saiu, afim de instalar uma Estação rádio-telegráfica, na Capital, e, principalmente, de implantar um sistema telefônico no estado. Sua chegada ao estado não sabemos ao certo o ano, pois de acordo com as fontes obtivemos duas datas: 1925 e 1927. Em todo caso podemos dizer que o Cel. Ganzo Fernandez chegou a Santa Catarina por volta de 1926.

O primeiro passo dado foi a instalação da Estação rádio-telegráfica, em Florianópolis, da Companhia Telefônica Riograndense, que realizou toda a obra com sua própria aparelhagem, sem auxílio e sem subvenção oficial. A inauguração da Estação se deu em 7 de julho de 1927, na praça XV de Novembro, nº 8, tendo o Cel. Juan Ganzo Fernandez como chefe da Estação e o Dr. Carlos Wendhausen como representante da firma na Capital. À solenidade marcaram presença: Dr. Adolpho Konder, Governador do Estado, acompanhado das suas casas civil e militar; Dr. Henrique Fontes, secretário da Fazenda e Obras Públicas; Dr. Cid Campos, Secretário do Interior; Medeiros Filho, Chefe da Polícia; Dr. Heitor Blum, Superintendente municipal; Coronel Lopes Vieira; Coronel Abdon Arroxllas, Inspetor da Alfândega; Coronel Mário Abreu, Delegado fiscal; Miguel Antomades, Vice-cônsul da Grécia; Dr. Willy Hoffmann, engenheiro da firma Hoepcke & Cia; Dyonísio Sousa, Chefe do serviço de rádio; Pe. Dr. Zartmann, Diretor do Ginásio Catarinense, e outros.

Depois de vencer a concorrência pública para implantar um sistema telefônico no estado, em 5 de Dezemmbro de 1927 o Cel. Ganzo Fernandez firmou contrato com o Governo de Santa Catarina para que sua firma, a Companhia Telefônica Catarinense, que não tinha nenhuma ligação com a Companhia Telefônica Riograndense, explorasse os serviços de comunicação telefônica e fonográfica intermunicipais, bem como o serviço telefônico da Capital do Estado e seu Município, de acordo com a Lei nº 1578, de 21 de Setembro de 1927, por não mais de 35 anos.

Além de explorar os serviços intermunicipais, a Lei também permitia à empresa explorá-los nos outros municípios do estado, desde que:

"Parágrafo Único - Si a exploração fôr feita dentro do mesmo município, cabe aos municípios conceder os respectivos privilégios."

As primeiras cidades a serem ligadas à Capital, pela C.T.C. foram Itajaí, Blumenau, Joinville e Laguna, através de linhas telefônicas, e Lages, atarvés de rádio. A construção  da rêde foi iniciada em 22 de Dezembero de 1927, dirigindo-se para Laguna por São José, Palhoça, Massiambu e Paulo Lopes, e para Itajaí, Brusque , Blumenau e Joinville, passando por Biguaçú, Tijucas, Itapema e Gaspar.

Os serviços telefônicos e fonográficos passaram a funcionar em meados de 1928, logo após estabelecida a primeira linha telefônica, a Florianópolis-Joinville, unindo São José, Biguaçú, Tijucas, Itajaí, Gaspar, Blumenau e as demais localidades intermediárias, e também Palhoça. No ano seguinte, o estado já contava com o funcionamento de 23 estações, ligadas entre si por uma rêde de 800 km, atravessando 14 municípios.

à medida em que as linhas eram instaladas, iam sendo observadas as vantagens oferecidas pelas comunicações telefônicas inter-municipais, despertando com isso, especial interesse dos poderes municipais, e suas respectivas populações, pela realização desses serviços nos municípios que ainda não os possuiam.

Os fonogramas, que já eram conhecidos no Rio Grande do Sul, foram uma das novidades trazidas para Santa Catarina pelo Cel. Ganzo.

Os fonogramas eram telegramas telefônicos. Obedeciam o mesmo sistema dos telegramas comuns, mas com a diferenca de serem mais rápidos, custarem  a metade da taxa de um telegrama e de serem, absolutamente, sigilosos. Eles eram feitos da seguinte maneira: entregava-se, no guichet da Central, o original, pagava-se a taxa e o fonograma era expedido pelos aparelhos telefônicos para a localidade do seu destino. Lá, era entregue ao destinatário, fechado.

Além dos fonogramas, as linhas intermunicipais se destinavam também as "conferências telefônicas". A pessoa que desejasse falar, de Florianópolis, com uma outra pessoa em Joinville, pedia a ligação, de sua casa ou da Central. Previamente era enviado um aviso, por fonograma, à pessoa com quem desejasse falar, marcando a hora para a conferência. A taxa a ser paga era contada por minuto.

"Entre apparelhos de dois (2) assignantes até 20 kilometros de distância por três minutos 1$000
Por minuto seguinte $400
Por mais 10 kilometros ou fracção por três minutos $200
Por minuto excedente $400"

De acordo com o contrato, o serviço na cidade e município de Florianópolis só podia começar quando terminasse o prazo de concessão da empresa telefônica que funcionava alí. Como o contrato da Trinks, Ehlke & Cia foi assinado em 2 de Julho de 1908 e terminaria 20 anos depois, a contar daquela data, é bem provável que a C.T.C. só começou suas atividades pelas proximidades de Julho de 1928. É o que também nos leva a crer a Mensagem do Dr. Adolpho Konder à Assembléia Legislativa em 29 de Julho de 1928, onde ele declara:

"No município da Capital foi construida, e já se acha funcionando, uma linha para a praia do Campeche, que serve ao aeródromo da Companhia de Aviação Latecoère; e já estão sendo preparados os materiais destinados à rêde urbana, que obedecerá ao systema automático."

A implantação do sistema automático de transmissão em Florianópolis só se concretizou em 1930, também fazendo parte das obrigações contratuais. Entretanto, foi dado ao concessionário a faculdade de e3stabelecer outros sistemas mais baratos, como uma medidad de manter os
 serviços funcionando, enquanto o sistema automático não era ativado, e de favorecer a população que não tinha meios de adquirir, tão cedo, um aparelho deste novo sistema que custava 15 vezes mais que um aparelho de sistema manual.

O sistema automático foi outra das novidades introduzidas em Santa Catarina pela C.T.C. Este sistema dispensava, definitivamente, o emprego de funcionários para fazer as ligações. Bastava o ususário, tão somente, girar o disco de algarismos de 1 a 0, junto ao aparelho, combinando-os de maneira a obter o número desejado, para que a ligação fosse feita, em poucos segundos. Para desligar era só tocar no gancho.

O sistema, segundo o Cel. Ganzo Fernandez, era "tão perfeito que quando, porventura, algum defeito na linha se manifesta, uma lâmpada se acende, diante do operador. A côr da luz que apparece varia conforme a natureza do defeito. Assim, pois, si se trata de um curto circuito, a luz será vermelha, por ex; si um fio desligado, azul, etc. No local em que o defeito se encontra
 existirá uma pequena faísca da mesma côr da lâmpada que deu o sinal".

Em 21 de Setembro de 1930, às 14 horas, na Praça XV de Novembro, nº 8, cumpriu-se o contrato da Companhia Telefônica Catarinense com a inauguração da Central Automática de Florianópolis. Esta cidade passava a ser, então, a 20ª do mundo que possuia este serviço, e a 5ª do Brasil que o inaugurava.

Nesta mesma ocasião inaugurou-se também a rêde telefônica subterrânea da Capital e as linhas interurbanas, ligando Florianópolis a: par o Norte - Biguaçú, Tijucas, Camboriú, Itajaí, Brusque, Gaspar, Blumenau, Itoupava Seca, Indaial, Timbó, Jaraguá do Sul, Hansa, Joinville, Parati e São Francisco -, para o Sul - Estreito, São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Paulo Lopes, Laguna e Tubarão.

À inauguração estiveram presentes: Dr. Antônio Vicente Bulcão Vianna, Presidente do Estado; Dr. Fulvio Aducci, Presidente eleito de Santa Catarina; Dr. Adolpho Konder, Senador; Dr. Heitor Blum, Prefeito da Capital, entre outros.

Pouco à pouco, a C.T.C., com seus próprios recursos, ia estendendo sua rêde, sempre por linhas físicas, por quase todo território catarinense, como podemos notar no quadro abaixo e no quadro do anexo 6. Não podemos deixar de chamar a atenção para duas cidades paranaenses - Rio Negro e União da Vitória - que fazem parte deste último quadro. Infelizmente, nada podemos dizer a respeito de suas presenças na rêde intermunicipal de Santa Catarina e, consequentemente, da saída da Companhia do território catarinense.





Continua...

24 setembro 2008

A História do Telefone em Santa Catarina - Parte 1


Juan Ganzo Fernandez, sem chapéu, em primeiro plano, durante as instalações de linhas telefônicas para o interior do Estado de Santa Catarina. Anos 30.


Introdução

O Telefone

O Telefone no Brasil




O TELEFONE EM SANTA CATARINA


OS PRIMEIROS PASSOS


O telefone não tardou em aparecer em Santa Catarina.

Um ano após a instalação dos primeiros aparelhos no Brasil, Desterro (antigo nome de Florianópolis) teve o privilégio de presenciar a primeira experiência feita com o telefone em Santa Catarina. Privilégio este que se não fossem duas pequenas notícias em dois jornais locais, dos três que existiam, "O Despertador" e "O Conservador", o fato passaria despercebido.

Na noite do dia 26 de julho de 1878, durante o Governo do Dr. Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, o Sr. Cavalcanti, chefe da estação telegráfica da Capital da província, convidou a população para assistir a experiência, que foi feita ligando a estação telegráfica, no Largo do palácio, à estação do Estreito, o que equivalia, mais ou menos, a dois mil metros.

Várias pessoas tiveram a oportunidade de falar ao aparelho e todos que ali estavam presentes puderam ouvir as perguntas e as respostas transmitidas de forma clara e distinta, "como se estivessem conversando n'uma distância de 20 a 30 metros".

Segundo os jornais, o Sr. Cavalcanti tencionava fazer uma nova experiência entre a estação do Estreito e a de Laguna, por ser a distância maior, porém, não conseguimos comprovar se o teste foi feito.

Após este primeiro contato da população com o telefone, o desenvolvimento da telefonia em santa Catarina seguiu a passos lentos e de forma precária.

A primeira concessão, para instalar linhas telefônicas no Desterro, foi dada a Arthur Teixeira de Macedo através do Decreto Imperial nº 8.458, de 18 de Março de 1882, de conformidade com as bases aprovadas pelo Decreto nº 8.453 A, que estabelecia as cláusulas do contrato. segundo este Decreto, a concessão era de 15 anos, durante os quais não poderia ser autorizada empresa idêntica a se estabelecer dentro da mesma circunscrição. Examinando os jornais da época, apesar da maioria não ter edições periódicas, não existe neles qualquer menção a respeito, seja da concessão, seja de alguma tentativa de assentamento de linhas telefônicas; o que nos leva a crer que a concessão tenha caducado, no máximo, depois de um ano da publicação do Decreto de
concessão, segundo a cláusula 16ª, que dizia:

"Caducará a concessão:

1º Si o assentamento das linhas não estiver começado dentro do prazo de seis mezes, contados da publicação do respectivo decreto.
2º Si dentro de um anno contado da mesma data não se tiver concluido o assentamento das linhas".

Corroborando o caduamento da concessão está o fato de que só a 24 de Março de 1884 foram instaladas as primeiras linhas telefônicas em Santa Catarina, na Capital, ligando vários orgãos provinciais. Os aparelhos do sistema Adler, os mais aperfeiçoados da época, foram instalados no palácio da presidência, na tesouraria geral e provincial e na secretaria da polícia, sendo que o palácio da presid~encia servia como estação central das linhas, equipado com um comtador, mediante o qual as estações podiam falar entre si alternadas ou simultâneamente.

Os telefones encomendados pelo então Presidente da província, Dr. Francisco Luiz da Gama Rosa, tiveram problemnas nas suas instalações, pois não vieram acompanhados das instruções orientadoras do fabricante, além de que não existia na cidade nenhum conhecedor de telefonia. Por fim, depois de estudos e tentativas chegou-se a um resultado favorável graças a dois empregados do telégrafo do Estado, os Srs. Wernek e Lima.

Segundo "O Despertador" não era preciso
"fallar alto para que se ouça nitidamente as palavras, podendo, distinguir-se perfeitamente as pessoas que fallam, pelo timbre da voz peculiar a cada uma.
Todos os ruidos produzidos nas proximidades do apparelho, como risos, sons musicaes, etc, são transmittidos fielmente pelo instrumento".

O fato da insatlação dos telefones tomou uma certa notoriedade quando o jornal "Correio da Tarde", usando o telefone como pretexto para criticar a administração governamental, começou uma peleja com o jornal "O Despertador" que elogiava o procedimento do Dr. Gama Rosa. enquanto o "Correio da Tarde" dizia:

"ainda mesmo que a província estivesse nas melhores condições possíveis, um administrador sensato e que compenetrasse do alto cargo de que se acha revestido, não mandaria assentar linhas telephonicas nas repartições públicas, por ser uma cousa completamente inútil, de mero luxo aqui".

"Mas o que s. ex. queria com os telephones era uma distração para si e os seus meninos; alcançou o que ardentemente desejava; está satisfeitíssimo. Que digam as repartições públicas constantemente interrompidas em seu expediente, com detrimento do serviço público, o quanto s. ex. tem pagodeado!
Eis a grande vantagem que nos trouxe o telephone e pela qual o povo catharinense deve exultar de contentamento."

O "O Despertador" rebatia:

"O seu funccionamento nos estabelecimentos públicos não pode pertubar em cousa alguma os respectivos trabalhos, tornando-os, pelo contrário, mais accelerados e promptos pela facilidade em se obterem informações immediatas. Admira que se possa pensar diversamente.
E tanto é reconhecida a utilidade desse novo e admirável apparelho, que elle está sendo geralmente adoptado em todo o mundo, servindo grandemente às relações sociaes de todo gênero."

Diante de pontos-de-vista tão antagônicos, somente o tempo poderia ou não dar razão ao procedimento do Dr. Gama Rosa e as opiniões daqueles, que como "O Despertador", acreditavam, no valor do telefone.

E assim aconteceu quando em 6 de Outubro de 1887, através da Lei nº 275, o Estado de Santa Catarina concedeu privilégio por 25 anos a Alexandre Grandemagne e Gervásio Bortoluzzi para estabelecerem uma linha telefônica entre Tubarão e Araranguá - a primeira linha interurbana que temos conhecimento; quando, em 1903, a Câmara Municipal de Florianópolis concedeu a Valentim Uriz Erdosaim, direito de uso e gozo de uma rede telefônica no minicípio - não sabemos se a rêde foi instalada; quando, em dezembro de 1905, todas as providências estavam sendo tomadas para estabelecer uma estação telefônica, a primeira, em Painel, distrito de Lages, e, finalmente, quando, em 1907, o serviço público da Capital reclamava a instalação de aparelhos telefônicos nas repartições para dar maior rapidez as providências por elas tomadas,
confirmando assim, 23 anos depois, as opiniões do "O Despertador".

Da concessão municipal a Valentin Uriz Erdosaim, em 1903, pouco sabemos, mas provavelmente, deve ter caducado, cremos, 6 meses após assinado o contrato, se nos basearmos no contrato de concessão de 2 de Julho de 1908, firmado entre a Câmara Municipal de Florianópolis e o concessionário Carlos A. Reis para instalação, exploração e monopólio de uma rêde telefônica, nesta cidade, por 20 anos.

Por motivos desconhecidos, Carlos A. Reis transferiu a concessão em 17 de Agosto de 1908 à firma Grossembacher & Trinks, de Joinville. A mesma firma, que através da Lei nº 804, de 8 de Setembro de 1908, recebeu, também, do Governador do Estado Gustavo Richard privilégio por 20 anos para instalar uma rêde telefônica que, partindo do município de Joinville, ligasse os municípios de São Francisco do Sul, Parati (atual Araquari), Campo Alegre e São Bento.

Representada por Paulo Trinks em Florianópolis, a empresa em 4 dias, após a transferência, já se manifestava através de jornal, oferecendo seus serviços ao público, seja a particulares, associações, casas comerciais ou estabelecimentos públicos. Em Janeiro de 1909, Florianópolis já constava com 122 telefones instalados, número que pouco se alterou até 1915, quando apareceu a primeira lista telefônica do município, talvez a primeira do estado, aumentando para 257 assinaturas, quando Florianópolis constava com, aproximadamente 40.000 habitantes.

Grossembacher e Trinks foram dois nomes que ficaram ligados à telefônia do estado até 1932. Em Florianópolis, a sociedade Grossembacher & Trinks desapareceu antes de 1915, surgindo a sociedade Paulo Trinks e Ehlke, que a partir de 1º de Janeiro de 1922 passou a ser Trinks, Ehlke & Cia, quando a Paulo Trinks e Paulo Ehlke juntou-se Henrique Stamm, e que se dissolveu em 12 de Julho de 1928.

Sobre a firma Grossembacher & Trinks em Joinville, os documentos que a Junta Comercial do Estado dispõe, e que datam desde 1926, nos levam a crer que a firma continuou até 1932, formada por Gustavo Grossembacher e Adolfo Trinks, quando se dissolveu.

Nossas imprecisões a respeito das sociedades comerciais se originam da falta de documentos na Junta Comercial do Estado, que em 18 de Fevereiro de 1919 foi destruida num grande incêndio, resultando daí o desaparecimento de todos os registros de firmas comerciais deste Estado.

Uma análise dos dados disponíveis sobre a empresa Grossembacher & Trinks nos levam a presumir que Paulo e Adolfo Trinks formavam com Gustavo Grossembacher a sociedade. Pouco antes de 1915, Paulo trinks saiu da firma, recebendo, por acôrdo, a concessão municipal de Florianópolis, pertencente a Grossembacher & Trinks, como pagamento de seu capital na empresa. Paulo Trinks fêz então sociedade com Paulo Ehlke, e que mais tarde se transformou em Trinks, Ehlke & Cia. Enquanto isso, em Joinville, Gustavo Grossembacher e Adolfo Trinks continuavam com a sociedade, até 1932, de posse, agora também, de uma concessão municipal, de 13 de Abril de 1917, desta mesma cidade.

Uma idéia do que era a telefonia, em 1913, em Santa Catarina podemos ter no quadro abaixo, que não se modificaria muito nos próximos 14 anos, até a data da implantação da Companhia Telefônica Catarinense, pelo Coronel Juan Ganzo Fernandez, em 1927. E que só
Joinville, Blumenau e Florianópolis "constavam com serviço telefônico no estado, que era prestado por centrais locais, funcionando manualmente".


A implantação de um sistema telefônico intermunicipal no estado se fazia necessário a medida que a população se expandia e em face do aumento da economia. Tornava-se assim fundamenental as trocas de informações entre os catarinenses para que houvesse maior integração social, mais rapidez nas transações comerciais e maior agilidade nos serviços da administração pública.

Tentativas foram feitas como a de 1914, a primeira, que através da Lei nº 1001, de 10 de Outubro, o Governador do Estado de Santa Catarina, Coronel Felipe Schmidt concedia privilégio a José O'Donnel, ou empresa que organisasse, para estabelecer linhas telefônicas entre todos os municípios do estado por 20 anos, e a de 1924, em que o governador Dr. Hercílio Pedro da Luz concedia, em 8 de Maio, à Companhia Tracção, Luz e Força de Florianópolis privilégio exclusivo para instalar e explorar os serviços de telefones urbanos e suburbanos em todo o estado catarinense, mediante a condição de ligar os municípios à rêde geral. Porém, esta Companhia desistiu do privilégio em 17 de Janeiro de 1927.

Mas foi neste mesmo ano de 1927, com a instalação da Companhia Telefônica Catarinense, que se pôs fim a deficiência de comunicação nos municípios e entre eles.



A História do Telefone em Santa Catarina - O Telefone no Brasil


O TELEFONE NO BRASIL


Logo após a chegada de D. Pedro II ao Brasil, em 1877, foi inaugurado o serviço telefônico com a instalação das primeiras linhas, interligando o Palácio da Quinta da Boa Vista (atual Museu Nacional) com as residências dos Ministros de Estado, utilizando telefones montados no Rio de Janeiro pela "Western and Brazilian Telegraph" - Cabo Submarino.

Despertando o interesse do comércio e da indústria, antes que findasse 1877, a casa comercial "Ao Rei dos Mágicos", na rua do Ouvidor nº 116, da firma Rodde & Chaves, começou a fabricar telefones seguindo as descrições da gazeta francesa "Lumière Electrique", e estabeleceu uma linha telefônica pública dêste estabelecimento ao Corpo de Bombeiros.

A primeira concessão para construir e explorar linhas telefônicas no Brasil foi dada, em 15 de Novembro de 1879. através do Decreto nº 7539, a Charles Mackie, que a teve caducada. Mas, tendo formado, em 13 de Outubro de 1880, em Nova York, uma sociedade por ações denominada "Telephone Company of Brazil", Charles Paul Mackie requereu nova concessão, que foi obtida em 17 de Abril de 1881 pelo Decreto nº 8065, para prestar serviço telefônico na Corte. Em seguida a esta concessão, o Imperador baixou a Circular de 11 de Agosto de 1881, dando ao Governo o direito de conceder a instalação de linhas telefônicas, mesmo que para uso particular das localidades, uma vez que estas se achavam em iguais condições às linhas telegráficas, que pertenciam ao domínio exclusivo do Estado.

Novas concessões se seguiram, e tendo surgido os primeiros problemas relacionados com a instalação e exploração das linhas, o Imperador baixou o Decreto nº 8453 A, de 11 de Março de 1882, estabelecendo as bases para a concessão de linhas telefônicas.

Com a proclamação da República e com as Constituições que se seguiram, o poder para a exploração dos serviços ficou dividido entre o poder municipal, quando o serviço telefônico se restringia ao município, o poder estadual, quando o serviço fosse entre municípios do estado, e o poder federal, quando o serviço fosse interestadual e internacional.

Procurando institucionalizar as telecomunicações, o Governo Federal, em 1962, resolveu criar o Código Brasileiro de Telecomunicações, através da Lei nº 4117, de 27 de Agosto de 1962.

O Código Brasileiro de Telecomunicações fixou uma política e criou um orgão para executá-la, o Conselho Nacional de Telecomunicações - CONTEL, que através de sua Secretaria Executiva, o Departamento Nacional de Telecomunicações - DENTEL, elaborou o Plano Nacional de Telecomunicações, fixando as normas nacionais, que promovem o desenvolvimento, fiscalizam as concessões e propõem as tarifas a serem pagas pela execução dos serviços, na área da Telecomunicações.

Os serviços telefônicos, porém, não acompanhavam o ritmo de desenvolvimento do país. Com o crescimento das cidades e da população, "exigia-se maior número de comunicações e as centrais telefônicas passaram a operar com carga de tráfego superior ao seu dimensionamento."

Em Setembro de 1965 foi criada a Empresa Brasileira de Telecomunicações - EMBRATEL - com o objetivo de instalar e explorar os grandes troncos de microondas integrantes do Sistema Nacional de Telecomunicações, e as suas conexões com o exterior. Para executar os programas da EMBRATEL, foi criado, então, o Fundo Nacional de Telecomunicações.

Um ano depois, o Governo estatizou a Companhia Telefônica Brasileira (C.T.B.) e suas associadas,a  Companhia Telefônica de Minas Gerais (C.T.M.G.) e a Companhia Telefônica do Espírito Santo (C.T.E.S.), pertencentes à Brazilian Traction, de capital canadense, que funcionva no Brasil desde 1912.

Em 13 de Fevereiro de 1967, o Governo Federal, através do Decreto-Lei nº 162, transferiu para a União o poder de explorar os serviços telefônicos dos municípios.

E neste mesmo ano extinguiu-se o Ministério da Viação e Obras Públicas e foi criado, em seu lugar, o Ministério dos Transportes e o das Comunicações, que ficou constituido pelo CONTEL, DENTEL, ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) e EMBRATEL.



30 julho 2008

Rádio Sociedade Rio-grandense: o sarau dos pioneiros esquecidos


Mais uma raridade enviada por João Francisco Ganzo Barcellos, neto de Juan Edson Ganzo Fernandez.  Nesta foto, raríssima, Juan Edison Ganzo Fernandez, com sua equipe, na rádio Sociedade Rio-Grandense em Porto Alegre.



Nossa prima, Lótus Ganzo fernandez Barcellos, há meses havia me enviado este texto em anexo num e-mail. Só agora percebi minha distração... mas aqui está:



Rádio Sociedade Rio-grandense: o sarau dos pioneiros esquecidos

Luiz Artur Ferraretto1

“Já não há, conquista de nossa época, distâncias invencíveis, e as antigas mosidades
do tempo foram abolidas.” A frase de impacto, escolhida a dedo pelo então diretor da Biblioteca
Pública do Estado, Eduardo Guimarães2, poderia ter passado à história, mas acabou
caindo no esquecimento. O momento era propício para as veleidades intelectuais e as
previsões otimistas. No entanto, somente 55 anos depois, em 1979, os fatos envolvendo
aquela noite de domingo, 7 de setembro de 1924, seriam recuperados, com a publicação de
Raízes e evolução do rádio e da televisão. No livro, em um trecho com quatro páginas, sob
o título Correção de um erro histórico, Octavio Augusto Vampré registrava, embora rapidamente,
a trajetória da Rádio Sociedade Rio-grandense, primeira entidade a realizar, de
forma organizada, transmissões radiofônicas no Rio Grande do Sul.
Na realidade, ainda hoje, persiste a idéia de que a radiodifusão sonora no estado
surgiu na cidade de Pelotas, a 256 km de Porto Alegre, em 1925, com a Sociedade Anônima
Rádio Pelotense. Por esta linha de raciocínio, na capital, a primeira emissora seria a
Rádio Sociedade Gaúcha, cujas transmissões iniciam, em caráter oficial, no dia 19 de novembro
de 19273. Esta é, inclusive, a versão difundida pela Associação Gaúcha de Emissoras
de Rádio e Televisão (Agert)4.
Mas voltemos àquela noite nos salões da Vila Diamela, a residência do empresário
Juan Ganzo Fernandez na Avenida 13 de Maio5, no bairro Menino Deus. Em um clima típico
de sarau em que desfilava a elite da época, as transmissões começaram às 21h, com o discurso
de Guimarães6, “saudando o presidente7 do estado, secretários do governo, demais autoridades
civis e militares, e amadores da radiotelefonia, tanto no país como no estrangeiro”8. Na
seqüência, o programa, divulgado na edição dominical do principal jornal da Porto Alegre de
então, o Correio do povo, previa a difusão de informações com “resultados dos matchs de
foot-ball, das corridas da Protetora do Turfe9 etc.”10, sobre o que não há indícios de que tenha
ocorrido ou não. O ponto alto da noite, no entanto, ficou a cargo de números musicais
predominantemente eruditos, como trechos da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, ou uma
Polonaise, de Frédéric Chopin. Obras de compositores mais recentes à época como o russo
Sergei Rachmaninoff também faziam parte da apresentação. Foram incluídos ainda trabalhos
de brasileiros como a Canção da saudade, do poeta pernambucano Olegário Mariano, e as
melodias Suspira, coração, suspira! e Morena, morena, do compositor carioca Luciano
Gallet11. Na execução, sucediam-se, cantando ou ao piano, integrantes do Conservatório de
Música de Porto Alegre. Em um tom típico dos encontros sociais daqueles tempos, a filha do
anfitrião, Diamela Ganzo Fernandez, também participou da apresentação. Por último, Eduardo
Guimarães, dirigiu-se, novamente, aos presentes e aos eventuais ouvintes. Quando a
transmissão foi interrompida, os relógios marcavam 22h15.

1
A história da Rádio Sociedade Rio-grandense começa, no entanto, meses antes,
quando Ganzo, um dos diretores da Companhia Telefônica Rio-grandense, trouxe da Europa
a idéia de transmitir música a domicílio. A sugestão de envolver no projeto a empresa,
que expandia suas linhas pelo estado, não prosperou, como explicaria a Vampré um destes
pioneiros da radiodifusão gaúcha, Evaristo Bicca12:
“(...) dentro da própria Companhia Telefônica Rio-grandense, o coronel Ganzo
encontrou, por parte de outros diretores – Victor Coussirat de Araújo e Viterbo
de Carvalho13 - objeções ao projeto que acabou não passando disso”.
Mesmo assim, no dia 3 de abril de 1924, o jornal A federação, órgão do Partido
Republicano Rio-grandense, publicava:
“Irradiações fônicas a domicílio - Um grupo de jovens aqui residentes pretende
instalar, nesta capital, um serviço de irradiações fônicas a domicílio, mediante
modesta mensalidade, a fim de que possam gozar de tão importante melhoramento
até mesmo as pessoas menos abastadas.
As irradiações fônicas consistem na transmissão a domicílio da radiotelefonia recebida
do Rio, Buenos Aires e Montevidéu. Também serão transmitidas a domicílio:
concertos, discursos, conferências, séries humorísticas, poesias, audições
teatrais, receitas úteis para as famílias, notícias importantes e tudo aquilo que
possa interessar às famílias”14.
Integrando este grupo de entusiastas, Evaristo Bicca e Edison Ganzo15 viajam para
Buenos Aires, cidade em que várias experiências em radiodifusão já vinham sendo realizadas.
Da capital da Argentina, trazem um transmissor adquirido com a colaboração de Alberto
de Brito e Cunha. Graças ao aparelho, estavam garantidas as condições técnicas para
efetivar o funcionamento da sociedade, ainda sem nome. Assim, no dia 4 de setembro, os
“amadores da radiotelefonia”, como chamavam os jornais, reúnem-se no salão nobre de A
federação, cujo diretor interino, o jornalista Decio Martins Coimbra presidiria os trabalhos,
sugerindo que a nova entidade adotasse a denominação de Rádio Sociedade Riograndense16.
“Fundação de uma sociedade de radiotelefonia - Em reunião realizada, anteontem,
foi fundada uma sociedade de radiotelefonia, a exemplo das existentes no
país e no estrangeiro.
Presidiu os trabalhos, que correram animados, o doutor Decio Coimbra que, depois
de explicar os fins da reunião, declarou instalada a Rádio Sociedade Riograndense.
Os senhores. Edison Ganzo, Alberto de Brito e Cunha e Evaristo B. Quintana,
proprietários de um aparelho transmissor já instalado nesta capital, puseram a referida
estação à disposição da Rádio Sociedade até que esta possa adquirir uma
própria, sendo esse oferecimento agradecido pelo presidente.
Ficou, então, combinado que se iniciassem as irradiações experimentais a 7 do
corrente, em homenagem à data aniversária de nossa emancipação política.
Tratou-se, depois, da escolha da diretoria provisória, que ficou assim constituída:
presidente, doutor Decio Coimbra; vice-presidente, J.M. Barreto Vianna; secretário,
Augusto de Carvalho; tesoureiro, Dario Coelho; direção técnica, Edison
Ganzo, Adeodato Araújo e Germano Heussler; Conselho Diretor, Alberto de
Brito e Cunha, doutor Oscar Pedreira, Moacyr Godoy Ilha, Pelegrin Filgueiras,
Evaristo B. Quintana, Victor Coussirat de Araújo, Gustavo Leyraud, Tasso Bolivar
Corrêa, Pedro Notari, Eloy Moraes; Conselho Fiscal, coronel Juan Ganzo
Fernandez, doutor Mario Reis, doutor Viterbo de Carvalho. Esta diretoria funcionará
até que esteja definitivamente organizada a Rádio Sociedade Riograndense,
quando se procederá a eleição da nova diretoria.
A Rádio Sociedade Rio-grandense tem por fim proporcionar audições musicais,
conferências literárias, científicas, informações comerciais, câmbio etc.”17.
Decidida a data, foi feita a transmissão inaugural. Como se vê, os sócios da R.S.R. -
sigla com a qual a imprensa passou a denominar a entidade – pretendiam seguir os passos
de Edgard Roquette-Pinto e de sua quase homônima Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A
rigor, os poucos dados disponíveis a respeito destas transmissões denotam uma grande
afinidade política com o governo da época, como se verá mais adiante. Antes é necessário
compreender como a introdução do rádio no extremo sul brasileiro relaciona-se com o ideal
de modernização, de progresso amparado na ordem, tão caro ao positivismo, filosofia
política hegemônica no Rio Grande do Sul desde a promulgação da Constituição Estadual,
de 14 de julho de 1891, mesma data que o autor deste documento legal, Júlio de Castilhos,
do Partido Republicano Rio-grandense, chegou à Presidência gaúcha.

2
Nas três primeiras décadas do século 20, Porto Alegre vive um sonho de urbanização.
Em 1914, por determinação do intendente18 José Montaury de Aguiar Leitão19, o arquiteto
João Maciel elabora o Plano de Melhoramentos, base da reorganização dos espaços urbanos
da capital gaúcha. Seis anos antes, a entrada em funcionamento da Usina Elétrica Municipal
garantira a energia necessária para que os bondes movidos a eletricidade começassem a circular.
É justamente em 1924, já com Otávio Rocha20 na Intendência Municipal, que o planejamento
proposto por Maciel há uma década começa a sair do papel. Novas ruas e avenidas
vão surgir. Erguem-se grandes prédios públicos como o Palácio Piratini, sede do governo
gaúcho, inaugurado em 1921; a Biblioteca Pública, concluída em 1922; ou o prédio de A
federação, porta-voz impresso do poder, construído no biênio 1921-192221.
Em paralelo, a Companhia Telefônica Rio-grandense expande suas linhas pelo estado.
Porto Alegre, desde o dia 19 de abril de 1922, conta com telefones automáticos22, um avanço
tecnológico inédito em toda a América do Sul, compartilhado apenas com Rio Grande23.
“O telefone automático, de que se podem orgulhar de possuir as duas cidades
rio-grandenses, deixa qualquer assinante que o tenha em sua residência ou negócio
o arbítrio de fazer ele próprio a sua ligação instantânea, a menos que o aparelho
que se pretenda esteja em comunicação.”24
É, portanto, no seio de uma empresa com pretensões inovadoras que o rádio começa
a ser pensado como algo mais concreto no estado. Antes disto, os indícios oferecidos
pelas edições dos dois principais periódicos da capital gaúcha – o Correio do povo e A federação
– confirmam a existência de receptores, trazidos do exterior por algum entusiasta
ou importados por meio de casas comerciais como a Barreto Vianna, a Byington ou a
Bromberg. Além disto, existiam galenas25 fabricadas artesanalmente.
Neste contexto de curiosidade em torno da inovação tecnológica, o então diretor do
Correio do povo, José Alexandre Alcaraz, contrata a importação de um receptor no mês de
julho de 1924, vendo no rádio uma utilidade semelhante à do telégrafo, pelo qual chegavam
notícias de outros estados e países.
“Acompanhando o maravilhoso desenvolvimento da radiotelefonia, que por toda
parte está assumindo extraordinária importância, o Correio do povo encomendou
nos Estados Unidos, por intermédio da casa Bromberg e Cia., desta praça, um
dos mais aperfeiçoados aparelhos no gênero.
Dotado de um poderoso alto-falante, permitirá não só receber notícias como ouvir
concertos e representações teatrais emitidos em Montevidéu, Buenos Aires e
outras estações transmissoras.
O aparelho encomendado, que não ficará somente ao serviço desta folha, mas também
será posto à disposição do público quando a ocasião se ofereça, tem as seguintes
características: contém seis tubos ou lâmpadas, utiliza para a sintonia bobinas
tipo ninho de abelhas e, para a ampliação e a reprodução, um potente ampliador
alto-falante da Western Electric Co., que constitui uma combinação inigualável,
tanto relativamente ao volume. como à intensidade dos sons produzidos”26.
A idéia de colocar o aparelho à disposição do público confirma a existência de um
certo interesse pelo que era chamado ainda de “radiotelefonia”. Interesse que é explorado,
a partir da constituição da Rádio Sociedade Rio-grandense, pelas empresas importadoras e
por pequenas oficinas de manufatura de aparelhos. Assim, duas semanas após a primeira
transmissão da R.S.R., a capa da edição dominical do Correio do povo estampava um
anúncio, o maior de todos naquela página, ocupando cinco colunas (23 cm aproximadamente)
e atingindo 7,5 cm de altura27:
RADIOTELEFONIA
“Radio Corporation of America”
Os afamados e ultramodernos aparelhos e artigos desta corporação serão em breve
postos à venda pelos agentes e depositários:

BYINGTON & Cia.
Andradas, 215A e 217 – Telefone 51 – Porto Alegre
No domingo seguinte, novo texto publicitário28, com tamanho e destaque idênticos,
propalava as vantagens dos receptores postos à venda a partir de então:
RADIOTELEFONIA
“Radio Corporation of America”
Com uma RADIOLA Super Heterodyne de seis válvulas,
recebem-se, sem ligação à antena externa ou terra, irradiações de Buenos Aires e
Rio de Janeiro com alto-falante e algumas pilhas secas em lugar de acumuladores.
Mais informações com os agentes e depositários:
BYINGTON & Cia.
Andradas, 215A e 217 – Telefone 51 – Porto Alegre
Ao que parece, os anúncios refletem um lance de oportunismo comercial da filial
gaúcha da Byington29, empresa paulista que, mais tarde, enveredaria para a produção de
receptores e tentaria montar a primeira rede de emissoras do país. Intenção semelhante
demonstram outras casas comerciais:
“Continua em experiências o aparelho de radiotelefonia instalado no Ginásio
Santa Maria, em Santa Maria, por meio do qual já foram ouvidos concertos dos
teatros de Buenos Aires, embora a instalação não esteja completa. Dentro de
pouco tempo, logo que sejam instaladas as baterias elétricas que faltam, será
aquele aparelho inaugurado. É ele servido por quatro fortes lâmpadas, e poderá
receber comunicações da distância de 2.000 km.
No Palace Hotel, em Cruz Alta, o senhor Armando P. Coelho, representante da
firma Barreto Vianna e Cia., de Porto Alegre, instalou um moderno aparelho de
radiotelefonia, o qual já deve estar funcionando”30.
Em dezembro de 1924, nas vitrinas da Livraria do Globo31, a firma Mattos e Alcântara
expõe um receptor “construído especialmente para mostrar o adiantamento da indústria
nacional neste gênero, fazendo-se apenas a importação de alguns materiais que aqui
não se encontram”32. Os aparelhos eram fabricados com a marca R.D.1 nas instalações da
empresa, na Duque de Caxias, n. 93. A respeito, informava o Correio do povo:
“São de fácil manejo, podendo ser mudadas, com diminuta demora, as comunicações
entre as várias estações emissoras. Pretendem os fabricantes construir,
agora, aparelhos de quatro válvulas, os quais terão, assim, maior potência que os
atuais de duas ou três apenas”33.
Outro exemplo da produção local eram os aparelhos oferecidos pela Rádio Oficina, de
Notari & Tambellini, instalada na General Vitorino, n. 25A. Os catálogos desta pequena fábrica
destacavam o elegante acabamento e o custo “inferior ao dos fabricados no estrangeiro”34.
Os receptores poderiam, ainda, ser adquiridos pelo correio. A empresa carioca
Mestre e Bladge oferecia, nos jornais da capital gaúcha, catálogos de equipamentos de rádio
“com 62 páginas e mais de 300 gravuras explicativas com instruções muito úteis a respeito”
35 ao preço de 2$200 (dois mil e duzentos réis). Os anúncios listavam o que poderia
ser ouvido nas irradiações das emissoras: concertos, conferências, cotações da bolsa, câmbio,
teatros e telegramas com as últimas notícias.
Circulava, ainda, em Porto Alegre, entre os entusiastas da radiodifusão, a revista
Rádio, como atesta nota publicada por A federação36:
“Oferecidos pelo nosso distinto amigo e colaborador senhor Augusto de Carvalho,
diretor da Repartição de Estatística e secretário da R.S.R., recebemos os três
últimos números, aqui chegados, dessa excelente revista brasileira, de que a Rádio
Sociedade Rio-grandense é correspondente nesta capital”.
É importante ressaltar que a publicação, a primeira do país no gênero, estava ligada
aos pioneiros da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro37, surgindo, portanto, dentro deste
clima de curiosidade e interesse crescentes pela radiodifusão. A respeito, esclarece Maria
Elvira Bonavita Federico38:
“Essa revista teve seu primeiro número publicado no Rio de Janeiro a 13 de outubro
de 1923. Era bimensal e saía nos dias primeiro e 15 de cada mês. Os números
avulsos eram vendidos no Brasil a mil e quinhentos réis e, no exterior, o número
avulso saía por dois mil e quinhentos réis, e o atrasado a quatro mil réis. As
anuidades custavam, no Brasil, trinta mil réis e, no exterior, cinqüenta mil réis
(no exterior significava edições em Buenos Aires e Montevidéu). As publicidades
veiculadas no periódico eram as das firmas produtoras ou revendedoras de
equipamentos e componentes de aparelhos de rádio (...)”.
Como era comum a utilização de material de publicações do centro do país nos jornais
de Porto Alegre, muitas vezes sem a citação da origem, pode-se cogitar que a revista
Rádio tenha servido também de fonte para alguns textos técnicos veiculados na época. São
exemplos os longos e detalhados artigos publicados no Correio do povo nos meses de fevereiro
e março de 1925, que ensinavam a montar componentes de aparelhos receptores, mais
precisamente quatro tipos de bobinas de indução eletromagnética39. Contrariando a praxe
de identificar, pelo menos com iniciais, os responsáveis por textos abordando assuntos especializados,
não há neles indicação de autoria.
É possível, ainda, aventar o que os primeiros radiófilos porto-alegrenses conseguiam
captar. As dificuldades eram muitas, variando conforme as condições meteorológicas,
como se depreende desta nota publicada na época:
“Os amadores da radiofonia devem estar satisfeitos pelos prenúncios de despedida
que faz o atual verão com estes dias frescos que ultimamente tem feito, pois
todos sabem que é a estação inimiga do rádio e principalmente este ano, que,
num período de dois meses, apenas o dia 19 de janeiro foi o único perfeito às audições
longínquas”40.
Apesar destes problemas, no entanto, pode-se supor que as emissões captadas eram
em sua maioria do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Em Montevidéu, desde 1922, transmitia
a Rádio General Electric41, que, no ano seguinte, passa a fazê-lo regularmente. No
entanto, mesmo no Uruguai, sua sintonia era difícil, devido à interferência de uma estação
de radiotelegrafia mais potente42. Da então capital federal, chegavam principalmente as
transmissões da Rádio Sociedade, cujo equipamento, com seus 6 kw, era o mais potente do
país43. Da Argentina, ouviam-se diversas emissoras44. Entre elas, as de sinal mais forte
eram a LOR Rádio Argentina45 e a Broadcasting La Nación46. Além destas, havia transmissões
de particulares, que dariam origem aos atuais radioamadores.

3
Pelos registros da imprensa, a maioria das transmissões da Rádio Sociedade Riograndense,
aparentemente, ocorreu em setembro, outubro e novembro de 1924. As mais importantes
estavam relacionadas com a comemoração do centenário da imigração alemã, amplamente
incentivada pelo governo estadual. Os primeiros colonos de origem germânica haviam
chegado um século antes em 25 de julho de 1824 à região do Vale do Rio dos Sinos,
onde surgiriam municípios como São Leopoldo e Novo Hamburgo47. Dentro do ideário positivista,
louvava-se o trabalho dos imigrantes e do progresso das áreas por eles ocupadas.
Assim, duas semanas após a sua transmissão inaugural, a Rádio Sociedade Riograndense
dedicou suas emissões à colônia alemã, inclusive com uma saudação do secretário
da entidade, Augusto de Carvalho. Naquele domingo, 21 de setembro, o concerto vocal
e instrumental oferecido pela R.S.R. foi ouvido em locais distantes da capital gaúcha como
São Leopoldo, a 40 km, e Cruz Alta, a 359 km. Dias depois, registrando estes fatos, o Correio
do povo anunciava:
“O governo do estado atendeu ao pedido que lhe fez aquela associação para instalar
um microfone no Theatro São Pedro, a fim de irradiar, aos vários municípios do
interior do estado, onde existem aparelhos radiotelefônicos, os espetáculos da
Companhia Alemã de Operetas, esperada nesta capital dentro de poucos dias”48.
De fato, em 23 de outubro, a Rádio Sociedade Rio-grandense fez sua primeira experiência
diretamente do Theatro São Pedro, onde a Companhia Alemã de Operetas Modernas
Urban & Lessing apresentava, naquela noite, o espetáculo A diretora dos correios49.
Dois dias depois, ocorreu a transmissão da opereta O primo lá das Índias, de Eduard
Kuennecke, dentro das comemorações do centenário da imigração alemã, como previra um
mês antes a nota publicada pelo Correio do povo50.
No dia 3 de outubro, os associados reuniram-se, aprovando o estatuto da R.S.R. e
marcando para a semana seguinte a eleição da nova diretoria, substituindo a escolhida provisoriamente
no início de setembro51. O novo encontro foi precedido por uma convocação
publicada no Correio do povo, assinada pelo secretário da diretoria provisória, Augusto de
Carvalho52. Assim, na noite de 10 de outubro53, nos salões da Confeitaria Rocco, então um
requintado ponto de encontro da elite porto-alegrense, a Rádio Sociedade Rio-grandense
escolheu a sua primeira diretoria, composta pelos seguintes sócios:

Presidente – Juan Ganzo Fernandez.
Vice-presidente – João Alcides Cunha.
Primeiro-secretário – Augusto de Carvalho.
Segundo-secretário – José Pessôa de Mello.
Primeiro-tesoureiro – Dario Coelho.
Segundo-tesoureiro – Gustavo Leyraud.
Conselho Diretor – Edison Ganzo, Mario Reis, Tasso Bolivar Corrêa e Adeodato
Araújo.
Suplentes do Conselho Diretor – Germano Heussler, J. Ennet, Alfredo Meneghetti e
Pelegrin Filgueiras.
Conselho Fiscal – Viterbo de Carvalho, Luciano Junqueira e Luciano Cunha.

Contava, então, com 300 sócios. Entre eles, despontavam intelectuais, empresários
e figuras da administração pública gaúcha. O uruguaio Juan Ganzo Fernandez54, por exemplo,
era um empreendedor. Em 1906, na cidade de Montevidéu, associado a grupos financeiros,
fundou a Ganzo, Durruty & Cia. que, um ano depois, quando ele se transferiu para
Porto Alegre, originou a Companhia Telefônica Rio-grandense, incorporando a antiga União
Telefônica de Porto Alegre. Antes, já instalara estes serviços em seu país de origem e
nos municípios gaúchos de Bagé, Erval, Dom Pedrito, São Gabriel, Rio Grande, Pelotas,
São Lourenço do Sul, Cruz Alta e Santa Cruz do Sul. A sua empresa, como já foi citado,
seria ainda a pioneira em telefonia automática na América do Sul55. Outros nomes expressivos
da Companhia Telefônica Rio-grandense eram Viterbo de Carvalho, integrante do
Conselho Fiscal da R.S.R., e Victor Coussirat de Araújo, que fez parte do Conselho Diretor
na fase de organização da sociedade.
O presidente da diretoria provisória, eleita em 4 de setembro de 1924, jornalista
Decio Martins Coimbra, ocupava a direção interina de A federação, cargo que deixa no ano
seguinte, quando passa a se dedicar à diplomacia, inicialmente no Consulado do Brasil, em
Paso de los Libres, na Argentina. Mantém-se, no entanto, como colaborador eventual do
jornal governista56. Poeta e cronista, também publicava seus textos em A federação o secretário
da R.S.R., Augusto Meireles de Carvalho, funcionário público desde 1915 e, na
época, diretor da Repartição Estadual de Estatística57. Eduardo Guimarães, que proferiu o
discurso inaugural na primeira transmissão da Rádio Sociedade Rio-grandense, dividia-se
entre a poesia simbolista, o periódico do Partido Republicano Rio-grandense e a direção da
Biblioteca Pública do Estado. Já o professor Tasso Bolivar Corrêa, do Conselho Diretor,
dirigiu o Conservatório de Música de Porto Alegre entre 1921 e 1922, voltando ao cargo
interinamente em 192558. O vice-presidente João Alcides Cunha, bacharel em Ciências
Físicas e Matemáticas, lecionava em diversas instituições com destaque para a Escola
Complementar59, na qual, posteriormente, seria diretor no biênio 1935-193660.
Embora não se tenha conseguido confirmar esta possibilidade, o sobrenome do
vice-presidente da diretoria provisória, J.M. Barreto Vianna, sugere ainda alguma ligação
da R.S.R. com a Barreto Vianna e Cia., uma das empresas comerciais instaladas que importava
aparelhos receptores. A sua participação poderia ser uma forma lógica de garantir a
colocação no mercado de Porto Alegre dos equipamentos necessários aos associados.
Com tantas pessoas ligadas aos interesses dominantes, em especial do Partido Republicano
Rio-grandense, no poder desde 1891, pode-se depreender uma proximidade da
R.S.R. com o governo gaúcho, exercido com mão de ferro por Antônio Augusto Borges de
Medeiros, então no seu quinto mandato como presidente do estado. O próprio surgimento
desta sociedade de radiófilos coincide com um momento particularmente conturbado. No
dia 28 de outubro daquele ano de 1924, o capitão Luiz Carlos Prestes61 levanta em armas a
guarnição de Santo Ângelo, tomando de assalto a cidade. O movimento dos tenentes, iniciado
em São Paulo, no mês de julho, chegava ao Rio Grande do Sul com suas reivindicações
de voto secreto, diminuição da descentralização federativa, limitação das atribuições
do Poder Executivo, moralização e independência do Legislativo, ampliação da autonomia
do Judiciário e obrigatoriedade do ensino primário e profissional.
Em contraste com as aspirações dos revoltosos, o governo estadual possuía bastante
autonomia em relação à Presidência da República e, graças à Constituição redigida por
Júlio de Castilhos, o poder estava centralizado na figura do chefe do Executivo - no caso,
Borges - que submetia a si o Legislativo e o Judiciário. Era natural, portanto, que parcela
da oposição acabasse juntando-se aos tenentes. Parece natural, também, que, devido às
relações de seus integrantes com o Partido Republicano Rio-grandense, a R.S.R. protagonizasse
um fato como este, descrito em A federação:
“A estação irradiadora da Rádio Sociedade Rio-grandense tem transmitido, para
todo o estado, todos os informes e notas oficiais, referentes à atualidade política,
insertos nas colunas de A federação.
Merece ser destacada, dessas irradiações, a transmissão, anteontem feita, do manifesto
do doutor Arthur Bernardes, presidente da República, à Nação, a proclamação
do Congresso ao povo brasileiro, bem como a do doutor Carlos de Campos,
presidente do estado de São Paulo.
Segundo informes em seu poder, as irradiações da R.S.R. têm sido apanhadas,
com muita nitidez, em diversas localidades do estado, pelos amantes da radiotelefonia”

4
Os dados disponíveis indicam que, após novembro de 1924, tornaram-se esparsas
ou cessaram totalmente as transmissões da Rádio Sociedade Rio-grandense. A entidade só
voltaria a ser notícia em abril de 1925.
“A Rádio Sociedade Rio-grandense iniciará, em princípios de maio, as suas irradiações.
Desde já está ela se preparando para fazer transmissões para vários pontos do
estado, diariamente, das 20 às 24 h.
Além de uma orquestra, que executará números de músicas nacionais, a Rádio
Sociedade irradiará conferências do nosso ilustre colaborador Alcides Maya e
dos doutores Luiz Guedes e Ulysses de Nonohay.
No ano passado, fez ela diversas irradiações que foram recebidas em várias cidades
da fronteira do estado.”64
Observa-se que o texto parece confirmar a hipótese de que as transmissões concentraram-
se nos meses de setembro, outubro e novembro de 1924. No entanto, a pretensão de
reiniciar as irradiações no mês seguinte não chega a se concretizar, como indica a nota a
seguir, publicada no dia 13 de junho em A federação:
“Esta sociedade vai recomeçar estes dias as suas irradiações para todo o estado.
Serão elas feitas com um aparelho mais possante, de 40 watts, cujo contrato de
compra já foi realizado.
Serão instalados dois alto-falantes, sendo um na Confeitaria Rosiclér65 e outro no
edifício onde funcionou o Metrópole Hotel”66.
No mesmo dia, texto semelhante, quase idêntico, aparecia nas páginas do Correio
do povo67. Pela presença, entre os integrantes da Rádio Sociedade Rio-grandense, de colaboradores
dos dois principais diários do estado na época, tudo indica que uma nova transmissão
da R.S.R. seria informada ao público, usando estes periódicos. Não é o que ocorre.
Além disto, era praxe na época o registro do aniversário de publicações – mesmo as concorrentes
– ou de entidades as mais variadas. Em setembro de 1925, nem A federação nem
o Correio lembram a transmissão de um ano antes da Rádio Sociedade. Este último, inclusive,
publica em 21 de outubro um interessante panorama das estações transmissoras brasileiras68.
Nele, a única emissora gaúcha citada é a Sociedade Anônima Rádio Pelotense,
que desde 25 de agosto transmitia na cidade de Pelotas, na zona sul do estado69.
Octavio Augusto Vampré70 apresenta uma explicação para o fim da R.S.R.:
“A Rádio Sociedade Rio-grandense procurou seguir o modelo da época, implantado
no Rio por Roquette-Pinto. Radioamadorismo e associativo. Cada um de
seus 300 sócios deveria contribuir com mensalidade de cinco mil réis.
Nem sempre pontuais nas contribuições, os sócios deixaram a empresa com sérios
problemas econômicos. Partiu-se para o debate sobre as conveniências ou
não de se apelar ao comércio. Este foi voto vencido. Pretendeu-se fidelidade aos
princípios exclusivamente culturais ditados pelo fundador da Rádio Sociedade do
Rio de Janeiro”.
Agravando esta situação da entidade e complementando a informação de Vampré,
cabe lembrar que, em 5 de novembro de 1924, o decreto n. 16.657 criava uma nova taxa a
ser paga pelos interessados, como informa esta circular assinada pelo diretor geral dos telégrafos,
Paulo Gomide:
“Em aditamento à portaria n. 3.378, de 2 de novembro de 1924, e tendo em vista
a resolução do senhor ministro da Viação, datada de 13 do corrente, declaro, de
acordo com o artigo 41 do regulamento aprovado pelo decreto n. 16.657, de 5 de
novembro de 1924, publicado no Diário Oficial de dezembro do mesmo ano, que
os possuidores de estações receptoras, além da taxa estabelecida pela lei orçamentária,
devida por exercício financeiro, ficam obrigados ao pagamento da taxa
de inscrição na importância de cinco mil réis, que será cobrada por meio de selos
de estampilhas apostas no requerimento, independente do selo próprio de um mil
réis devido por petição”71.
Portanto, após novembro, custava 5$000 (cinco mil réis) a autorização para possuir
um aparelho receptor, o que, sem dúvida, atingiu os entusiastas da época.
Observações finais
Apesar de sua curta duração, a Rádio Sociedade Rio-grandense foi, sem dúvida, a
primeira tentativa de repetir em Porto Alegre as experiências levadas a cabo na época em
outros centros, dos quais parecem ter tido maior influência as emissões provenientes do
Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Embora praticamente esquecida depois da Segunda
Guerra Mundial, a trajetória da R.S.R. embasou iniciativas posteriores como a da Rádio
Sociedade Gaúcha que, desde o início das articulações para a sua fundação, procurou não
repetir os mesmos erros de seus antecessores. Prova disto são dois artigos publicados pelo
Correio do povo em janeiro e fevereiro de 1927, ambos intitulados Por que não possuirá
Porto Alegre a sua estação de radiodifusão? e, provavelmente, de autoria de José Baptista
Pereira72, um dos que tratava de organizar a nova entidade radiodifusora. No primeiro deles,
é reconhecido o caráter pioneiro das iniciativas de 1924, em Porto Alegre, e de 1925,
em Pelotas. O autor constata, no entanto, que ambas enfrentaram problemas devido à falta
de recursos e à ausência de um serviço de transmissões regulares e contínuas73.
Deste modo, quando a Rádio Sociedade Gaúcha foi ao ar, a transmissão inaugural daquela noite
de 19 de novembro de 1927 era financiada pela Casa Armando F. Ribeiro e Cia74. As emissões
possuíam também dias e horários fixos: terças, quintas, sábados e domingos. O rádio em Porto
Alegre começava, deste modo, lentamente a engatinhar. A experiência da Rádio Sociedade Riograndense
ia ficando para trás. As próprias condições políticas e econômicas dominantes em
1924 logo seriam suplantadas pelas mudanças provocadas pela Revolução de 1930. E o idealismo
dos pioneiros da R.S.R., mesmo eivado das preocupações e interesses da elite castilhista75,
daria lugar ao rádio comercial. Ficaria a impressão de que as experiências de setembro, outubro e
novembro de 1924 permaneceram na memória apenas como um breve e idílico sarau hertziano.





1 Professor da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas (RS), e mestrando do Programa de Pósgraduação
em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde desenvolve
a dissertação Rádio e capitalismo no Rio Grande do Sul: uma abordagem histórica.
2 apud VAMPRÉ, Octavio Augusto. Raízes e evolução do rádio e da televisão. Porto Alegre: Feplam/ RBS,
1979. p. 34. O autor baseou-se em texto publicado pelo jornal A federação em 8 de setembro de 1924.
3 cf. RÁDIO Sociedade Gaúcha. Correio do povo. Porto Alegre, 20 nov. 1927. p. 5.
4 ASSOCIAÇÃO GAÚCHA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO. O meio rádio. Disponível na
Internet Erro! A origem da referência não foi encontrada.. 26 set. 1998.
5 Em 24 de novembro de 1935, passou a se chamar Avenida Getúlio Vargas em homenagem ao presidente da
República, que visitava Porto Alegre. Nos terrenos da Vila Diamela, passa hoje a Avenida Ganzo, referência
ao antigo proprietário da área.
6 Expressão máxima da escola simbolista no Rio Grande do Sul, em especial devido ao livro A divina quimera,
lançado em 1916, Eduardo Guimarães era o principal poeta gaúcho na época, além de redator de A federação.
É provável que esta dupla caracterização, em que pesavam significativamente os versos por ele escritos,
tenha motivado a sua escolha para proferir o discurso inaugural da Rádio Sociedade Rio-grandense. Assinava,
por vezes, grafando o sobrenome Guimaraens a exemplo de outro simbolista, o mineiro Alphonsus
Guimaraens (cf. SPALDING, Walter. Construtores do Rio grande. Porto Alegre: Sulina, 1969. v.1, p. 197./
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 3.ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998. p. 201-2.).
7 Equivalente a governador, denominação adotada em 1934. Neste caso, tratava-se de Antônio Augusto Borges
de Medeiros.
8 A RADIOTELEFONIA em Porto Alegre. Correio do povo. Porto Alegre, 9 set. 1924. p. 4. Este e os demais
trechos de textos dos anos 20, citados neste artigo, tiveram sua grafia adaptada às normas atuais. Foram corrigidos
ainda erros na utilização da Língua Portuguesa ou eventuais falhas de composição.
9 Referência à Associação Protetora do Turfe, entidade responsável pela organização das corridas de cavalos
neste período.
10 SOCIEDADE de radiotelefonia. Correio do povo. Porto Alegre, 7 set. 1924. p. 4.
11 Por curiosidade, vale lembrar que o maestro Luciano Gallet exercia, por esta época, a direção artística da
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (cf. FEDERICO, Maria Elvira Bonavita. História da comunicação: rádio
e TV no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1982. p. 39.).
12 apud VAMPRÉ, Octavio Augusto. Op. cit. p. 35.
13 Os dois, no entanto, acabariam por ser envolvidos no projeto da Rádio Sociedade Rio-grandense. Na diretoria
provisória, escolhida em 4 de setembro de 1924, o nome de Victor Coussirat de Araújo constava entre
os integrantes do Conselho Diretor e o de Viterbo de Carvalho no do Conselho Fiscal. Este último seria confirmado
no cargo em 10 de outubro, quando foi eleita a primeira diretoria da entidade.
14 apud VAMPRÉ, Octavio Augusto. Op. cit. p. 35.
15 Não há registros precisos sobre o grau de parentesco de Edison Ganzo e Juan Ganzo Fernandez. Deve-se
tratar, entretanto, de um dos cinco filhos do casal Clorinda e Juan Ganzo Fernandez, citados à época da morte
deste último em 4 de abril de 1957 (cf. CORONEL Juan Ganzo Fernandez. Correio do povo, 7 abr. 1957. p.
20. Necrologia.).
16 cf. VAMPRÉ, Octavio Augusto. Op. cit. p. 36. O autor baseou-se em texto publicado pelo jornal A federação
em 5 de setembro de 1924.
17 Correio do povo. Porto Alegre, 6 set. 1924. p. 4.
18 Cargo da época, hoje equivalente ao de prefeito.
19 Intendente de Porto Alegre entre 1896 e 1924.
20 Intendente entre 14 de outubro de 1924 e 27 de fevereiro de 1928.
21 cf. HISTÓRIA ILUSTRADA DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre: Já Editores, 1997. p. 113-137.
22 cf. FRANCO, Sérgio da Costa. Op. cit. p. 399.
23 Município do litoral sul gaúcho localizado a 330 km de Porto Alegre.
24 COMPANHIA Telefônica Rio-grandense. A federação. Porto Alegre, 24 maio 1926. p. 5.
25 Denominação popular do sulfeto de chumbo em estado natural. Por extensão, o termo identifica um tipo de
receptor de rádio que era fabricado, muitas vezes, de forma caseira. Foi desenvolvido em 1906 por H.C.
Dunwood. Um pedaço de sulfeto de chumbo era ligado a uma antena por meio de um fio fino (o bigode de
gato). O som chegava aos ouvintes em um par de fones auriculares. A variação de uma agulha sobre o cristal
de galena fazia a sintonia da emissora (cf. VAMPRÉ, Octavio Augusto. Op. cit. p. 24-5).
26 UM APARELHO de radiotelefonia para o Correio do povo. Correio do povo. Porto Alegre, 15 jul. 1924. p. 4.
27 Correio do povo. Porto Alegre, 21 set. 1924. p. 1.
28 Correio do povo. Porto Alegre, 28 set. 1924. p. 1.
29 Pioneira da indústria eletro-eletrônica nacional, a Byington seria mais tarde absorvida pela multinacional
Motorola. No terreno da radiodifusão sonora, começa a se estruturar em 2 de maio de 1927, quando a Rádio
Cruzeiro do Sul, de São Paulo, foi inaugurada. Com o tempo, outras emissoras vão ser criadas ou absorvidas,
como a Cruzeiro do Sul (Rio de Janeiro, 1933), a Kosmos (São Paulo, 1933) e a Clube do Brasil (cujo controle
acionário foi adquirido em 1935).
30 APARELHOS de radiotelefonia. Correio do povo. Porto Alegre, 23 set. 1924. p. 5.
31 Localizada na principal rua do centro de Porto Alegre, a dos Andradas, a Livraria do Globo constituía-se
no principal ponto de encontro da intelectualidade gaúcha, sendo também freqüentada por políticos como o
próprio Getúlio Vargas.
32 APARELHO radiotelefônico. Correio do povo. Porto Alegre, 7 dez. 1924. p. 4.
33 RADIOTELEFONIA. Correio do povo. Porto Alegre, 10 dez. 1924. p. 4.
34 RADIOTELEFONIA. Correio do povo. Porto Alegre, 2 mar. 1925. p. 5.
35 Correio do povo. Porto Alegre, 4 jan. 1924. p. 13.
36 RÁDIO. A federação. Porto Alegre, 21 nov. 1924. p. 5.
37 A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi fundada em 20 de abril de 1923 e começou suas transmissões em
1º de maio daquele ano (cf. TINHORÃO, José Ramos. Música popular, do gramofone ao rádio e TV. São
Paulo: Ática, 1981. p. 34-5.).
38 Op. cit. p. 36.
39 BOBINA de indução Fundo de Cesto. Correio do povo. Porto Alegre, 8 fev. 1925. p. 12./
VARIOCOUPLER. Correio do povo. Porto Alegre, 15 fev. 1925. p. 8./ BOBINA Honey-Comb. Correio do
povo. Porto Alegre, 24 fev. 1925. p. 3./ Bobina Honey-Comb. Correio do povo. Porto Alegre, 20 mar. 1925. p. 8.
40 O VERÃO e a radiofonia. Correio do povo. Porto Alegre, 20 mar. 1925. p. 8.
41 Atual Rádio El Espectador.
42 RADIO EL ESPECTADOR. La historia de El Espectador contada por sus protagonistas. Disponível na
Internet Erro! A origem da referência não foi encontrada.. 5 maio 1999. Apresenta a transcrição de uma
mesa-redonda apresentada no dia 14 de dezembro de 1998. No caso, a informação é do jornalista Raúl Barbero,
funcionário da emissora entre 1931 e 1936, colunista do jornal El país e autor do livro De la galena al
satélite.
43 cf. A RADIOTELEFONIA no Brasil. As estações transmissoras. Correio do povo. Porto Alegre, 21 out.
1925. p. 6.
44 Segundo o jornalista argentino Claudio Morales (consultado por correio eletrônico em 9 e 13 de maio de
1999), entre 1924 e 1925, 12 emissoras, diferentes e legalizadas, fizeram as suas transmissões em Buenos
Aires. Além disto, outras nove, piratas, tiveram curta duração.
45 Primeira emissora da Argentina, cujas transmissões teriam iniciado em 1920.
46 Inicialmente não legalizada, deu origem à atual Rádio Mitre.
47 Cidades que atualmente fazem parte da chamada Grande Porto Alegre.
48 IRRADIAÇÕES radiofônicas. Correio do povo. Porto Alegre, 25 set. 1924. p. 4. É curioso observar que
neste texto o redator do jornal rebatiza a entidade como Rádio Cultura Rio-grandense. Não há dúvida, no
entanto, de que se tratava da Rádio Sociedade Rio-grandense, por citar o nome do secretário da R.S.R., Augusto
de Carvalho, e pela interligação dos fatos com registros posteriores do mesmo periódico.
49 cf. RÁDIO Sociedade Rio-grandense. Correio do povo. Porto Alegre, 23 out. 1924. p. 4.
50 cf. Correio do povo. Porto Alegre, 26 out. 1924. p. 8.
51 RADIOTELEFONIA. A federação. Porto Alegre, 4 out. 1924. p. 2.
52 cf. RÁDIO Sociedade Rio-grandense. Correio do povo. Porto Alegre, 8 out. 1924. p. 1. Apedido.
53 cf. ELEIÇÕES da primeira diretoria da R.S.R. A federação. Porto Alegre, 11 out. 1924. p. 2.
54 Ganzo integrava o Partido Nacional, no Uruguai, ou seja, era um blanco (conservadores) na tradicional
divisão política do seu país com os colorados (liberais), tendo lutado nas escaramuças políticas de 1897 e na
revolta liderada por Aparício Saraiva, em 1904, contra o governo de José Battle y Ordóñez. Como resultado
da sua participação nestes conflitos armados, ostentava a patente de coronel.
55 Em 1926, Juan Ganzo Fernandez vende a Companhia Telefônica Rio-grandense para a norte-americana
International Telegraph and Telephone, permanecendo como diretor da empresa até 1940, quando se transfere para Florianópolis, onde cria a Companhia Telefônica Catarinense (cf. CORONEL Juan Ganzo Fernandez.
Correio do povo, 7 abr. 1957. p. 20. Necrologia.).
56 cf. MARTINS, Ari. Escritores do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da UFRGS/ IEL, 1978. p. 151.
57 cf. MARTINS, Ari. Op. cit. p. 132.
58 cf. MARTINS, Ari. Op. cit. p. 157.
59 Atual Instituto de Educação General Flores da Cunha.
60 cf. MARTINS, Ari. Op. cit. p. 173.
61 A adesão à revolta cresceria nos meses seguintes. Em dezembro, os militares deslocam-se em direção ao
Paraná. Do seu encontro com os revoltosos paulistas, nasce a Coluna Prestes, responsável pela maior marcha
militar da história, com quase 25.000 km.
62.Os discursos e proclamações referidos pelo jornal do Partido Republicano Riograndense
foram proferidos e divulgados no dia 15 de novembro, data da Proclamação da
República, e repudiavam os levantes tenentistas. Na mesma época, a imprensa estava sob
forte pressão do governo. O chefe de Polícia, Armando Azambuja, determinara no dia 4 de
novembro a censura a todas as notícias sobre o movimento revolucionário, designando um
funcionário público de nome Sócrates Diniz para atuar junto à redação do principal diário
do estado, o Correio do povo. O diretor do jornal, José Alexandre Alcaraz, protestou contra
a medida, sem resultados, anunciando por fim, como forma de protesto, que não seriam
mais publicadas notícias a respeito da revolta63.
62 IRRADIAÇÕES da R.S.R. A federação. Porto Alegre, 19 nov. 1924. p. 5.
63 O CORREIO do povo e a censura. Correio do povo. Porto Alegre, 6 nov. 1924. p. 5.
64 A RADIOTELEFONIA em Porto Alegre. Correio do povo. Porto Alegre, 17 abr. 1925. p. 4.
65 Famoso ponto de encontro da Rua dos Andradas, administrado pelos irmãos Medeiros. A área em torno da
confeitaria era conhecida como Largo dos Medeiros.
66 SOCIEDADE Rádio Rio-grandense. A federação. Porto Alegre, 13 jun. 1925. p. 5.
67 SOCIEDADE Rádio Rio-grandense. Correio do povo. Porto Alegre, 13 jun. 1925. p. 4.
68 A RADIOTELEFONIA no Brasil. Estações transmissoras. Correio do povo. Porto Alegre, 21 out. 1925. p. 6.
69 Octavio Augusto Vampré observa que a Rádio Sociedade Rio-grandense “não chegou a comemorar o seu
segundo aniversário” (Op. cit. p. 37). Dá, portanto, a entender que a R.S.R. chegou a completar um ano ou
mais de atividades, hipótese que os dados aqui apresentados parecem desmentir.
70 Op. cit. p. 37.
71 TAXAS para instalações de aparelhos radiotelefônicos. Correio do povo, 3 fev. 1925. p. 4.
72 A autoria dos dois textos é indicada apenas pelas iniciais J.B.P. Ao final do segundo artigo, há uma convocação:
“Um grupo de dedicados amigos do rádio pretende realizar, dentro de breves dias, uma reunião que
será previamente anunciada, para tratar deste momentoso assunto. Daqui lançamos um insistente apelo a
todos os nossos amadores para que não deixem de comparecer, levando-lhes o seu auxílio e preciosa solidariedade”
(POR QUE não possuirá Porto Alegre a sua estação de radiodifusão? Segunda parte. Correio do povo.
Porto Alegre, 8 fev. 1927. p. 3.). Quando o encontro citado ocorre, no dia seguinte, José Baptista Pereira vai
ser um dos escolhidos para o comitê organizador responsável pelo projeto de estatutos da Rádio Sociedade
Gaúcha, desempenhando papel de destaque na constituição da entidade.
73 cf. POR QUE não possuirá Porto Alegre a sua estação de radiodifusão? Primeira parte. Correio do povo.
Porto Alegre, 29 jan. 1927. p. 3.
74 cf. RÁDIO Sociedade Gaúcha. Correio do povo. Porto Alegre, 18 nov. 1927. p. 4.
75 Referente a Júlio de Castilhos (1860-1903), referência ideológica de Antônio Borges de Medeiros, na época,
principal liderança política gaúcha que, na segunda metade da década de 20, vai cedendo lugar a Getúlio
Vargas, ele também um admirador do velho patriarca do Partido Republicano Rio-grandense.


Referências bibliográficas e eletrônicas
ASSOCIAÇÃO GAÚCHA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO. O meio rádio.
Disponível na Internet Erro! A origem da referência não foi encontrada.. 26 set.
1998.
FEDERICO, Maria Elvira Bonavita. História da comunicação: rádio e TV no Brasil. Petrópolis:
Vozes, 1982.
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 3.ed. Porto Alegre: Editora da
UFRGS, 1998.
GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior. Porto Alegre:
Mercado Aberto, 1994.
HISTÓRIA ILUSTRADA DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre: Já Editores, 1997.
HISTÓRIA ILUSTRADA DO RIO GRANDE DO SUL. Porto Alegre: Já Editores, 1998.
MARTINS, Ari. Escritores do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da UFRGS/ IEL,
1978.
NOSSO SÉCULO. São Paulo: Abril Cultural, 1980-1982. 5v.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. 7.ed. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1994.
RADIO EL ESPECTADOR. La historia de El Espectador contada por sus protagonistas.
Disponível na Internet Erro! A origem da referência não foi encontrada.. 5 maio
1999.
SPALDING, Walter. Construtores do Rio grande. Porto Alegre: Sulina, 1969. 3v.
TINHORÃO, José Ramos. Música popular, do gramofone ao rádio e TV. São Paulo: Ática,
1981.
VAMPRÉ, Octavio Augusto. Raízes e evolução do rádio e da televisão. Porto Alegre: Feplam/
RBS, 1979.
Para a elaboração deste texto foram consultadas, ainda, as coleções dos jornais Correio
do povo (de julho de 1924 a setembro de 1926; de janeiro, fevereiro, agosto, setembro,
novembro e dezembro de 1927; e de abril de 1957) e A federação (outubro de 1924 a setembro
de 1926). Também foi contatado, por meio de correio eletrônico, o jornalista argentino
Claudio Morales, coordenador da Oficina de Jornalismo Radiofônico do Colégio
Pasteur, de Buenos Aires