31 março 2011

Texto sobre Juan Ganzo Fernandez (Em 1913)



Olá Maurício!

Espero que estejas bem juntamente com tua família.

Encontrei este texto( a fonte está abaixo do mesmo) que fala sobre Juan Ganzo. Não sei se já tens. 
Achei interessante e estou te enviando
Um grande abraço
Ronaldo Marcos Bastos











Juan Ganzo Fernandez - O coronel Juan Ganzo Fernandez nasceu em Montevidéu, em 5 de outubro de 1873, e desde muito moço se dedicou ao estudo de eletricidade. Estabeleceu na República Oriental do Uruguai as primeiras linhas telefônicas inter-departamentais, comunicando a capital, que é Montevidéu, com os departamentos de Canelones e São José de Maio; ramificou aquelas linhas em uma extensão superior a 700 quilômetros. Em 1898, no mesmo país, no departamento de Cerro Largo, construiu uma central telefônica, a qual comunicou com a vila de Artigas; e em 1899, transpôs o Rio Jaguarão, dando comunicação àquele município do Brasil com a sua já vasta rede telefônica de Cerro Largo.
Durante o mesmo ano, comunicou o município de Jaguarão com o do Herval, cuja linha mede 95 quilômetros. Nos primeiros meses do ano de 9100 estendeu a comunicação desde Melo até Bagé, passando pela fronteira de Aceguá. Esta linha tem uma extensão de 165 quilômetros. Em Bagé, estabeleceu importante rede telefônica, a qual ligou todos os distritos rurais daquele município, dando também comunicação com o de Don Pedrito. Em 1902 estabeleceu a rede telefônica de São Gabriel; em 1904, a de Cruz Alta; e deu começo às de Pelotas e Rio Grande em outubro de 1905, as quais foram inauguradas no ano seguinte.
No mesmo ano, constituiu a Sociedade Progresso Rio-Grandense, com a firma de Ganzo, Durruty & Cia.; e, fazendo uma viagem à Europa, esteve na Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega, onde visitou as mais importantes fábricas no ramo da telefonia. Na Alemanha contratou, com a importante fábrica dos srs. Siemens & Halske, todos os materiais para a instalação telefônica subterrânea da cidade de Porto Alegre, com exceção dos aparelhos telefônicos, que contratou com a Telephon-Fabrik Actiengesellschaft, vorm J. Berliner, de Hannover.
Em seu regresso da Europa, incorporou, com o seu sócio, a casa bancária de Supervielle & Cia., de Montevidéu, à Companhia Telefônica Rio-Grandense, que conta hoje aproximadamente 5.000 assinantes.

FONTE: Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd.

03 janeiro 2011

Livro ... Imagens do Brasil no Início do Século XX

Olá Mauricio!
Feliz Ano Novo!
Fazia algum tempo que não mantinha-mos contato. Tudo bem contigo?
Pesquisando em um livro editado em Londres a respeito do Brasil no inicio do século XX (Imagens do Brasil no Inicio do Século XX), mais precisamente em 1912, encontrei tres fotografias que acho podem te interessar e dizem respeito ao Coronel Ganzo.
São fotografias que mostram o centro telefonico de Pelotas e as suas telefonistas. A outra é um quadro com os principais homens de negócio de Porto Alegre na época. Segundo o livro, ali esta a nata dos homens de negócio de POA no inicio do séculoXX. Caso já tenhas, valeu pela intenção.Caso te interesse, posso enviar os nomes de todos os outros componentes do quadro bem como o texto que fala sobre a Companhia Telefonica Riograndense.
Aproveito para enviar um grande abraço e reiterar os votos de Feliz Ano Novo

Ronaldo




Companhia Telefônica Rio-Grandense 
 O serviço de comunicações telefônicas no estado do Rio Grande do Sul foi iniciado pela Empresa Industrial Construtora do Rio Grande do Sul, proprietária dos centros telefônicos estabelecidos nas cidades de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, e bem assim dos privilégios concedidos pelas extintas Câmaras Municipais das três cidades, constantes dos contratos que adquiriu. O da cidade de Porto Alegre é datado de 8 de março de 1884 e o da do Rio Grande de 27 de maio de 1885, ambos por 15 anos; e o da de Pelotas é datado de 13 de outubro de 1886, por dez anos. Todos esses privilégios foram aprovados pela Assembléia Legislativa da antiga província.
Para comprar o acervo daquela empresa, organizou-se em Pelotas, a 24 de maio de 1895, uma sociedade anônima de responsabilidade limitada, sob a denominação de Empresa União Telefônica, com o capital de Rs. 500:000$000, que foi, mais tarde, elevado a Rs. 600:000$000. Esta sociedade continuou explorando, sem concorrentes, os serviços de sua antecessora nas três cidades acima mencionadas, até que, tendo já há muito expirado o prazo do privilégio que possuía, o coronel Juan Ganzo Fernandez, proprietário de diversos centros telefônicos em várias localidades do estado, obteve em 1906, da Intendência Municipal de Pelotas e da de Rio Grande, concessões para instalar centros telefônicos nessas duas localidades.
Estabelecidos tais centros e após um ano de funcionamento, solicitou a Sociedade concessão para instalar um novo centro na capital do estado. Havendo o coronel Ganzo Fernandez, para continuação desse e outros negócios, organizado a firma Ganzo, Durruty & Cia., iniciou, em 1908, as obras do centro telefônico de Porto Alegre, para as quais, no ano anterior, obtivera concessão do governo desse município.
Em maio desse ano, incorporou-se à mesma firma a Companhia Telefônica Rio-Grandense, que em 15 do mês seguinte ficou definitivamente instalada, e tomou a si todos os negócios da seção de telefones pertencentes a Ganzo, Durruty & Cia. O capital da nova companhia, em seu início, era de Rs.1.100:000$000, quantia que, em virtude de resolução da assembléia geral realizada em 15 de abril do corrente ano, foi aumentada para Rs. 1.300:000$000.
Para fazer face às despesas resultantes do acréscimo de suas instalações primitivas, contraiu ela um empréstimo de Rs. 500:000$000, em obrigações ao portador, ao juro de 8%. Tendo posteriormente feito aquisição da Empresa União Telefônica, emitiu um segundo empréstimo de Rs. 800:000$000 nas condições do precedente.
Com a realização dessa compra, está a Companhia Telefônica Rio-Grandense unificando o serviço nas localidades em que existem dois centros telefônicos, de forma que, presentemente, estão funcionando os seguintes, de acordo com diversos privilégios e concessões municipais: Porto Alegre, Pedras Bancas, Barra do Ribeiro, Itapoã, Belém, Tristeza, Canoas, Pelotas, Piratini, Monte Bonito, Cascata, Capão do Leão, Rio Grande, Povo Novo, Quinta, Ilha dos Marinheiros, Ilha do Leopídio, Cassino, São Leopoldo, Retiro, Nova Hamburgo, Santa Cruz, Vila Tereza, Rio Pardinho, Ferraz, São João do Montenegro, São Sebastião do Caí e São Lourenço.
Também de conformidade com as concessões que lhe foram dadas pelo governo do estado do Rio Grande do Sul, fez a companhia construir e estão funcionando as seguintes linhas intermunicipais: Porto Alegre e São Leopoldo, 6 linhas, 33 quilômetros cada uma; Porto Alegre a Canoas, 2 linhas, 14 quilômetros cada uma; São Leopoldo a Caí e Montenegro, 2 linhas, 44 quilômetros cada uma; Pelotas a Rio Grande, 10 linhas, 65 quilômetros cada uma; Pelotas a Piratini, 1 linha, 63 quilômetros; Pelotas a São Lourenço, 5 linhas, 90 quilômetros cada uma; Santa Cruz a Venâncio Aires, 1 linha, 40 quilômetros; Santa Cruz a Poço do Sobrado, 1 linha, 20 quilômetros; Pelotas a Capão do Leão, 4 linhas, 17 quilômetros cada uma.
O centro de Porto Alegre, a subestação de Navegantes, nesta cidade, e os de Pelotas, Rio Grande, São Sebastião e Monte Bonito estão instalados em prédios da companhia, tendo sido o primeiro deles especialmente construído para esse fim e os demais convenientemente adaptados à natureza de tal serviço.
Na central que a companhia possui em Porto Alegre, funciona uma mesa múltipla, Siemens & Halske, de bateria central, com capacidade para 10.000 assinantes. Existe um distribuidor primário, de ferro, também para 10.000 subscritores; 2 baterias de 12 acumuladores cada uma; e diversos dínamos, funcionando junto a motores, para carregar baterias e produção de luz.
Desta central, partem 25 cabos subterrâneos, os quais, por sua vez, na área da cidade em que a população é mais densa e em lugares mais adequados, se subdividem em outros, numa extensão de 42 quilômetros.
Na central de Pelotas, funciona uma mesa Siemens & Halske, a indutor múltiplo, de linhas duplas, para 1.600 subscritores e com capacidade para 3.000 linhas; na do Rio Grande, uma mesa Siemens & Halske, a indutor múltiplo, de linhas duplas, para 1.200 subscritores, com capacidade para 2.000 linhas; nas de São Lourenço, Santa Cruz, Montenegro, São Leopoldo, Ilha dos Marinheiros e Nova Hamburgo, mesas Standart, de 100 linhas duplas; nas do Capão do Leão, Monte Bonito e Povo Novo, mesas Standart, de 50 linhas; nas de Quinta e Cassino, mesas de 30 linhas; nas de Tristeza, Belém e Canoas, mesas de 25 linhas; nas de Vila Tereza e Barra do Ribeiro, comutadores de 20 linhas; nas de Itapoã e Cascata, comutadores de 12 linhas; nas de Rio Pardinho e Ferraz, comutadores de 10 linhas.
A companhia, em sua maior parte, usa os aparelhos J. Berliner, de Hanover; L. M. Ericson & Co., de Estocolmo; Western Electric Co. e Kellog Switchboard & Supply Co., de Chicago.

OBS: O texto foi passado em OCR e mantida a grafia original do livro





Homens de negócio de Porto Alegre:


1)  L.C. Schneider; 2) João Day; 3) Eduardo Secco; 4) H.Brockmann; 5) Sebastião de Brito; 6) Dr. Victor Fischel; 7) O falecido Jorge R. Petersen; 8) Conrado A. de Campos Penafiel; 9) Manoel Py; 10) Juan Ganzo Fernandez; 11) Major E. Arnt; 12) Alberto Bins; 13) Ernesto Neugebauer; 14) João Kappel Sobrinho; 15) Virgilio R. do Valle; 16) Lucio Lopes dos Santos; 17) Oscar Augusto Schneider; 18) João B. de Sampaio

OBS:O texto foi passado em OCR e mantida a grafia original do livro




Telefonistas de Pelotas, RS


Centro Telefônico de Pelotas, RS

28 setembro 2010

O Telefone em Porto Alegre, Rio Grande do Sul

O TELEFONE EM PORTO ALEGRE

A história da telefonia em Porto Alegre se inicia em 1882 quando a Companhia Telefonica do Brasil, que tinha sua sede na cidade do Rio de Janeiro, recebe uma carta imperial de permissão para explorar os serviços de telefone nas cidades de Petrópolis(RJ), Maceió, Salvador, Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Entretanto, apesar da permissão imperial, a companhia não executou o seu projeto e a telefonia não foi implantada, Dois anos mais tarde(1884), os Srs. Luiz Augusto Ferreira de Almeida e José Joaquim de Carvalho Bastos, receberam o privilégio imperial para exploração dos serviços de telefonia em Porto Alegre e propuseram à Camara Municipal a implantação dos serviços. Em março de 1884 os vereadores aprovaram o pedido e solicitaram a homologação do contrato junto a Assembléia Provincial que imediatamente sancionou a contratação. Foi então que em 09 de setembro de 1886, a empresa Companhia União Telefonica notifica a Câmara de que está em condições de iniciar os serviços. A referida companhia se instalou em um velho casarão colonial que existia na esquina da Rua Gal. Camara com a Riachuelo no local onde em 1909 seria erguido o prédio da atual Biblioteca Pública. No dia da inauguração a companhia já contava com 72 assinantes. A inauguração oficial dos serviços ocorreu no dia 15 de setembro de 1886 com a presença, entre outras autoridades, do Presidente da Província que na época era o Marechal Deodoro da Fonseca. Foi ele o primeiro a realizar uma chamada telefonica em Porto Alegre. No final daquele ano, ao deixar a Presidencia da Província, Deodoro citou em seu relatório que a Companhia União Telefonica já contava com 135 assinantes, ou seja quase o dobro do que tinha no dia da inauguração. Este número foi crescendo rapidamente e ao final do século XIX já era de 500 assinantes.
Os serviços da Companhia União Telefonica entretanto, não pareciam satisfazer plenamente os anseios da população e das autoridades. Isso se pode constatar quando logo no início do século XX, o Intendente de Porto Alegre José Montaury de Aguiar Leitão, resolve estabelecer ligação telefonica entre os distritos de Porto Alegre. Em 1903 a cidade já se achava ligada as seguintes localidades por telefonia municipal: Gravataí, Viamão,Pedras Brancas, Barra do Ribeiro, Mariana Pimentel, Belém Novo e Belém Velho.
Em 1906 as companhias de navegação e a Associação Comercial de Porto Alegre, resolvem instalar uma linha telefonica entre Belém Novo e Itapuã com a finalidade de registrar e controlar a passagem de navios na Lagoa dos Patos.
O ano de 1907 marcou o início da modernização do sistema de telefonia em Porto Alegre e também em algumas cidades do Rio Grande do Sul. Foi fundada a Companhia Telefonica Riograndense que tinha como sócio majoritário o Coronel Juan Ganzo Fernandez,nascido nas Ilhas Canárias, radicado desde muito jovem no Uruguai e que veio para Porto Alegre onde, juntamente com outros empresários, se inciou no ramo da telefonia. A Companhia Telefonica Riograndense adquiriu todo o acervo da Companhia União Telefonica e tinha a sua central instalada à rua Marechal Floriano próxima da esquina com a antiga rua 2 de fevereiro que mais tarde, em 1937, seria alargada para dar origem a atual Salgado Filho.
A empresa de Juan Ganzo Fernandez implantou tecnologia de ponta para a época e em 19 de abril de 1922 já instalava telefones automáticos em Porto Alegre. Nas Américas, somente Chicago e Nova York tinham este tipo de telefonia, logo, Porto Alegre se tornou a primeira cidade brasileira a contar com telefones automáticos. A primeira central deste tipo suportava 300 assinantes.
O Coronel Juan Ganzo Fernandez vendeu o controle de sua empresa para a IT&T ( International Telegraph and Telephone) em 1927 e mudou-se para Santa Catarina onde lá fundou a Companhia Telefonica Catarinense.
Em dezembro de 1962, no “apagar das luzes” de seu governo, depois de muitas discussões dentro e fora do Brasil, o Governador do Estado Leonel de Moura Brizola decreta a encampação da Companhia Telefonica Riograndense e abre caminho para a criação da CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações.

A implantação da telefonia na cidade de Pelotas: a criação CTMR
O sistema de comunicação despertava interesses de muitas pessoas e em 1884, foi fundado a empresa Correio Mercantil, por Antonio Joaquim Dias, que obteve a permissão de oferecer ao público e instalar linhas telefônicas, campainhas elétricas, para-raios e porta-vozes. Frente a esses benefícios muitos proprietários de empresas comerciais vão se conectar com a empresa do Correio Mercantil, através de uma linha telefonica. Pois, por telefone chegavam todas as novidades e notícias do porto da cidade. O Correio Mercantil criou uma coluna diária, chamada Telephones que através dela tinham a possibilidade de saber da reação da população com relação aos telefones e sobre seu uso, além de notícias de concessões e instalações de outras companhias telefonicas.
Os interesses do proprietário do Correio Mercantil, entre o período de 1884 a 1888, ficaram evidentes, e este jornal publicou diversos artigos sobre a importancia e os benefícios que teriam as pessoas da cidade com um centro telefônico. Nesses artigos publicavam o que outros jornais estavam escrevendo sobre tal inovação e as condições de pagamento de cada assinante. Os conflitos sobre os preços e as taxas de pagamento de cada assinante geraram muitas discussões na cidade e o proprietário do jornal utilizou a seguinte estratégia, lançando uma nota em que falava dos preços cobrados em Paris, Buenos Aires, Montevidéo e Rio de Janeiro, reforçando que o valor cobrado não era excessivo. Diziam que para tal inovação e melhoramento era preciso que tivessem assinantes.
A não instalação do centro telefônico por parte do proprietário do Correio Mercantil esbarrava, sobretudo, na legislação da Repartição Geral dos Telegráfos, que afirmava que era de competência exclusiva do governo imperial a concessão para o estabelecimento de linhas telefônicas. Ressaltando ainda que as linhas telefônicas que não tivessem o caráter geral e forem destinadas a serviços particulares caberia às assembléias provinciais conceder tal privilégio. Neste sentido, o proprietário do Correio Mercantil não conseguiu instalar um centro telefônico sólido.
É importante assinalar que no ano de 1888, instalou-se na cidade o Centro Telephonico Pelotense, que era mantido por José Bernadino de Souza. O mesmo conseguiu uma cláusula para explorar os serviços de linhas telefônicas por dez anos. Um dos aspectos mais importantes neste centro telefonico é que o governo provincial autorizou a camara municipal a conceder tal prerrogativa. As condições eram que ao instalar linhas telefoônicas o centro telefonico estivesse instalado na camara municipal e que proibisse qualquer empresa ou particulares de instalar novas linhas na cidade.
O governo imperial, através do engenheiro-chefe da Repartição Geral de Telégrafos escreveu um artigo que foi publicado no Correio Mercantil falando que era "um absurdo esse boicote" com relação as instalações de novas linhas telefonicas, pois a Repartição Geral de Telegráfos poderia muito bem instalar seus fios telefônicos nos postes telegráficos. O missivista termina seu artigo dizendo que poderia o Sr. José Bernadino de Souza ter influencias e conhecimentos dentro do governo provincial para ter tais concessões, mas que ele trabalhava com dignidade, transparencia, sem privilégios e lutava pelos interesses da empresa que dirigia.
Todos os conflitos existentes na concessão de linhas telefônicas na cidade de Pelotas, recebem um novo trato com a nova constituição que normatizou alguns aspectos essenciais no que se refere as redes telegráficas e telefonicas.
Pouco depois da mudança de legislação o sistema de telefonia na cidade passou a pertencer a Companhia Industrial e Construtora do Rio Grande do Sul, com sede administrativa na cidade de Porto Alegre (capital do Estado). As notícias sobre telefones são escassas pois, sua sede não estava na cidade de Pelotas e a imprensa local não publicava quase nada sobre esta companhia.
No ano de 1895, o governo do Estado percebendo a ineficiência da companhia que atuava em Pelotas, concedeu o direito de exploração do serviço telefônico para a Empreza União Telephonica. Essa concessão era para explorar os serviços em linhas telefonicas também nas cidades de Rio Grande e Porto Alegre. A companhia anterior concedeu todos os materiais de manutenção, assim como as propriedades e os trabalhadores. A nova empresa passaria a ter sede na cidade de Pelotas e também a diretoria era composta por pessoas da cidade. Com o passar dos anos a Empreza União Telephonica passa por uma série crise financeira e consequentemente não conseguiu investir em novas tecnologias. Com a criação da Companhia Telefonica Riograndense, em 1908, muitos proprietários que possuiam telefones da Empreza União Telephonica mudaram para a Companhia Telefonica Riograndense que apresentou novas tabelas de preços e uma proposta de melhores serviços. De todas as maneiras, os diretores da União Telephonica convocaram uma reunião para sanear os problemas da empresa, como uma última tentativa de recuperar o prestígio da mesma. Em reunião descobriram que os estatutos estavam ultrapassados e que no período de sua existência verificou-se uma série de fraudes e erros no livro de escrituras. A única solução possível foi fusionar-se com a Companhia Telefonica Riograndense.
A atuação da Companhia Telefonica Riograndense na cidade foi de um primeiro momento satisfatória para os que utilizavam tal serviço. Pois a empresa de Juan Ganzo Fernandes representava os interesses do estado e segundo os proprietários de telefones eram bem atendidos pela nova empresa. O mais interessante é que, em publicação nos jornais da cidade os proprietários notificavam a mudança para a empresa Ganzo, alegando o seviço eficiente da empresa. Em várias notas - a pedido da empresa - notificavam os nomes dos proprietários e o tipo de profissão de cada um deles, em sua maioria comerciantes, profissionais liberais e industriais.
Com o passar dos anos, a Companhia Telefonica Riograndense normatizou seus serviços fixando os preços dos serviços da empresa. Com a constante elevação das tarifas, muitos proprietários começam a perceber que os serviços prestados a cidade eram deficientes, pois alegavam que as normas e preços de tarifa vinham de Porto Alegre e era incompreensível que as cidades tivessem a mesma tarifa. Pois a Companhia Telefonica Riograndense não tinha o capital da cidade e alegavam que todos os benefícios com relação ao pagamento de taxas eram revertidos para outros locais e pouco ficava na cidade de Pelotas. Descontentes com os serviços prestados pela empresa de telefonia existente, os principais sócios da Associação Comercial resolveram, após várias reuniões e grandes debates, fundar sua própria companhia telefonica, formada a partir de capital pelotense.
Segundo o jornal Diário Popular, o descontentamento dos proprietários vinha desde agosto de 1917, quando ocorreram várias reuniões com o proprietário da Companhia Telefonica Riograndense. Em dezembro de 1918, a Companhia Telefônica Riograndense distribuiu circular para seus assinantes com nova tabela de preços, causando grande repercussão entre as pessoas e principalmente os comerciantes da cidade. Imediatamente os diretores da Associação Comercial convocaram uma reunião extraordinária.
Em reunião na sede da Associação Comercial, o Coronel Alberto Rosa, diretor do Banco Pelotense e ex diretor da Associação Comercial, afirmou que a única solução para melhorar os serviços telefonicos da cidade era a fundação de uma companhia telefonica com capital pelotense. A Associação Comercial de Pelotas, por meio de seus sócios, seria a principal incorporadora da nova companhia telefonica.
Assim, nasceu em 1919, a Companhia Telefonica Melhoramento e Resistencia (CTMR), cujos objetivos eram: melhorar os serviços e resistir ao capital que não fosse da cidade. O processo de implantação da CTMR seguiu a legislação das sociedades anonimas e aconteceu rapidamente. Em menos de um mes a Associação Comercial de Pelotas declarou ter depositado no Banco do Brasil a importancia de quarenta contos de réis, correspondente a dez por cento do capital declarado.
Após sua fundação, a CTMR pretendia explorar a indústria telefonica na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul e onde mais lhe conviesse. Iniciou-se assim, uma nova fase de expansão da telefonia. Os diretores da CTMR contrataram ainda, em 1919, a companhía norte-americana Western Campany e os estudos técnicos foram realizados no escritório da companhia localizado em Buenos Aires.
Com o sucesso da expansão da rede telefonica na área central da cidade de Pelotas, seus diretores resolveram estender os serviços para a cidade de Rio Grande (vizinha de Pelotas). Mas, não conseguiram o intento, pois a IT&T (International Telephone and Telegraph), que era a operadora da Companhia Telefonica Riograndense havia incorporado também os serviços daquela cidade. Aquela, através da Companhia Telefonica Riograndense vai tentar diversas vezes comprar as ações da CTMR e não conseguindo seu intento resolveu bloquear o acesso ao tráfego interurbano. Dessa forma os serviços telefonicos eram prestados por duas empresas telefonicas. Durante algum tempo quem precisava comunicar-se com outras cidades, utilizava o telefone da Companhia Telefônica Riograndense. Por isso muitas empresas comerciais e industriais possuíam dois telefones, um de cada companhia.
Podemos perceber que a partir de 1919, a Companhia Telefonica Melhoramento e Resistencia resistiu a todas as pressões para que suas ações não passassem para o capital estrangeiro. Aplicou todos os recursos em ampliação da rede telefonica levando também as suas linhas para os lugares mais afastados do município. Criou os centros telefonicos na zona rural do município como: Capão do Leão, Hydráulica, Retiro, Monte Bonito, Cascata e Santo Amor. Locais estes onde os acionistas da CTMR, na sua maioria, possuíam suas casas de verão ou eram proprietários de terras. Em todos esses centros, a Prefeitura Municipal possuia um escritório que estava conectado por linha telefonica.
Mesmo com as dificuldades burocráticas e concorrenciais em expandir linhas telefônicas para outras cidades, observamos o crescimento de linhas telefônicas: 2.121 em 1923, 2.475 linhas particulares em 1926, sendo que 57 telefones pertenciam as repartições públicas, além de 12 telefones privativos da empresa. Na década de 1930, a Companhia possuía 2.830 aparelhos colocados nos municípios de Pelotas e região.
Neste sentido, a expansão da rede telefonica, nas primeiras décadas do século XX em Pelotas, demonstrava todo o dinamismo da sua economia, sendo necessário investir em infra-estrutura básica. Pois, é interessante observar que os acionistas eram empresários, para os quais a nova companhia telefônica traria grandes benefícios para seus negócios e precisavam, portanto, de um serviço eficiente, para reduzir as distâncias e ter maior lucratividade nos seus empreendimentos. 




Escrito por Ronaldo Marcos Bastos

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil
Médico, formado pela antiga Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre. Professor Universitário de vários cursos de medicina, desde 1971 e pesquisador fotográfico há mais de 45 anos. Atualmente, participa como colunista do programa Câmera 2, da TV Pampa - Canal 4, apresentando o quadro "Porto Alegre uma História Fotográfica", quartas-feiras às 18h35.

26 setembro 2010

Possidônio Mâncio da Cunha Junior, sócio de Juan Ganzo Fernandez na Cia. Telephônica Riograndense - 1908

Recebi ontem, do nosso mais novo colaborador, Dr. Ronaldo Marcos Bastos, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.



Médico, formado pela antiga Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre. Professor Universitário de vários cursos de medicina, desde 1971 e pesquisador fotográfico há mais de 45 anos. Atualmente, participa como colunista do programa Câmera 2, da TV Pampa - Canal 4, apresentando o quadro "Porto Alegre uma História Fotográfica", quartas-feiras às 18h35.
Dr Ronaldo irá lançar um livro sobre Porto Alegre, "Porto Alegre, uma história fotográfica", onde, segundo ele, terá um capítulo destinado a telefonia no RGS e que certamente tratará com justiça o nome de nosso Juan Ganzo Fernandez. 

Dr. Ronaldo Marcos Bastos, muito obrigado!


Tenho que admitir que nunca ouvi falar neste sócio, aliás, de nenhum sócio. Quando o assunto é telefônica Riograndense, sempre vem a cabeça o sobrenome Ganzo. Mas sabíamos sim, que não era uma empresa exclusiva de Juan Ganzo Fernandez.
Assim, desde este momento, teremos conhecimento do sócio empreendedor da Companhia Telephônica Riograndense, que no momento oportuno, acreditou na capacidade empresarial de Juan Ganzo Fernandez e juntos fundaram a companhia que iria revolucionar as comunicações no sul do Brasil.





Possidônio Mâncio da Cunha Junior - 1900

Possidônio Mâncio da Cunha Júnior – Nascido em Pelotas em 1863, filho de Possidônio Mâncio da Cunha e Maria Bernardina Dias. Deputado estadual RGS (1891 e 1913/28). Deputado federal (1897/99). Falecido em São Paulo em 3/8/1931.

25 setembro 2010

Saint-Exupéry e Juan Carlos Ganzo Fernandez

Matéria encontrada na internet, saiu em jornal aqui de Santa Catarina.
Minha mãe me comentou certa vez que sabia que Saint-Exupéry e Jean Mermoz haviam frequentado Florianópolis e que haviam feito amizades com meu avós, Juan Carlos Ganzo Fernandez e Juan Ganzo Fernandez. 
Mas a história contada por ela vai além. Disse que naquela época, os aéronautas, ou simplesmente os "corajosos" pilotos de avião intercontinentais, eram tratados como celebridades, como artistas de cinema hollywoodianos. Distribuíam fotos autografadas... e que numa destas vindas de Jean Mermoz a Florianópolis, Juan Ganzo Fernandez fez um passeio de avião a convite deste famoso aviador. Inclusive, dando uma foto autografada de presente ao meu bisavô, foto esta que minha mãe lembra ter visto, porém, não se tem mais notícias da mesma. Talvez esteja com alguém de nossa família. Seria ótimo se pudessemos copiar, né?

Bom, boa leitura!






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Jornal A Notícia - 11 de junho de 2000

Campeche comemora
centenário de "Zé Perri"









Escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, antigo freqüentador do Campeche, faria 100 anos no dia 29 de junho de 2000









Celso Martins

Oescritor francês Antoine de Saint-Exupéry conviveu intensamente com os poucos pescadores e agricultores residentes no Campeche, nas décadas de 20 e 30, e com alguns intelectuais e personalidades do Centro de Florianópolis. A presença do autor de "O Pequeno Príncipe" na cidade está sendo resgatada por iniciativa do militar aposentado e pescador Getúlio Manoel Inácio, com o apoio da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), através do professor Mário Moraes e da jornalista Márcia Barreto.
A presença de Saint-Exupéry na Capital foi questionada durante muitos anos, atribuída à imaginação fértil de pessoas humildes, ou simples história de pescadores. Essa visão começou a mudar em março de 1991, a partir de uma entrevista do falecido Manoel Rafael Inácio - pai de Getúlio - à jornalista Daise Vogel (revista "Veja"). Na ocasião, o pescador e agricultor Manoel, conhecido por Deca, revelou diversos detalhes de suas ligações com o escritor, chamado de "Zé Perri", por causa da dificuldade em pronunciar o nome francês.
"Papai contava muitas histórias a respeito da presença de Saint-Exupéry, detalhes sobre as pescarias e festas de que ele participava", recorda Getúlio, empenhado há pelo menos cinco anos no resgate dessa convivência. Segundo ele, Deca e Zé Perri encontraram-se cerca de 15 vezes, entre os anos de 1926 e 1939. Um compadre de Manoel Rafael, o capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Cenen Abdon Camen, foi quem levou o escritor e piloto francês até seu engenho de farinha, onde conheceu e comeu beijú pela primeira vez.
Nas seguidas vezes em que esteve no local, Saint-Exupéry costumava deslocar-se até a ilha do Campeche, numa das canoas de seu amigo Deca, onde pescavam pampos e corvinas. "Ele gostava muito de um ensopado com esses peixes, ou então do caldo", diz Getúlio, com base no que ouviu do pai, nascido em 1909 e falecido em 1993. Com o caldo do peixe fazia-se o pirão, prato que Zé Perri pedia sempre que chegava no Campeche. "Era um sujeito simples, introvertido, sempre com uma caderneta e lápis nas mãos, anotando muitas coisas", salienta Getúlio.
Saint-Exupéry atuou como piloto da empresa francesa Lotécoère (depois Aeropostale e hoje Air France), que transportava correspondências, pequenas cargas e eventualmente algum passageiro, entre a Europa, África e América do Sul. A infra-estrutura montada no Campeche incluiu três pistas de pouso, hangar, prédio da administração e alojamento e uma estação de rádio com antena. Somente a casa da administração foi mantida, local onde funcionam atualmente a Intendência do Campeche e o Conselho Comunitário local.








Lampiões

"Saint-Exupéry dormiu muitas noites num dos quartos da administração, que ainda existe, onde também havia alojamento e refeitório", garante Getúlio Inácio. Onde havia a estação de rádio foi erguida a sede do Clube de Cabos, Soldados e Taifeiros da Base Aérea de Florianópolis e, no lugar do antigo hangar, construiu-se a Escola Básica Brigadeiro Eduardo Gomes. Parte da área do antigo pouso foi ocupada por residências. O espaço que sobrou, onde pastam algumas cabeças de gado, foi cercado pelo Ministério da Aeronáutica.
Durante o período em que as pistas do Campeche foram usadas, o morro existente nas proximidades foi usado para sinalizar a região do campo de pouso. "Eles acendiam 11 lampiões depois das 16 horas, sinalizando e orientando os pilotos. Por causa disso ele passou a ser chamado, até hoje, de morro do Lampião", conta o pai de Getúlio numa fita de vídeo que deixou gravada. Os lampiões eram acessos pontualmente, todos os dias, por dois moradores do Campeche, já falecidos - Onofre Fernandes e Cirilo da Silveira.








Famílias estreitaram laços

A presença dos franceses no Campeche levou a um estreitamento dos laços entre as famílias estrangeiras e nativas que lá residiam. "Era como se fosse uma família só, bem grande, porque o pessoal sempre estava junto", recorda Manoel Inácio na fita que deixou gravada. Alguns fatos desse tempo foram relatados por velhos moradores e se conservam na memória. O caso de Emílio (Mimi) Barreaux é um exemplo. Piloto da Latécoère, Mimi resolveu certo dia dar um vôo rasante sobre a Catedral Metropolitana de Florianópolis, quase atingindo as árvores mais altas da praça 15 de Novembro. O susto foi grande, os comentários percorreram a cidade, as autoridades reclamaram e Barreaux perdeu o brevê de piloto, indo trabalhar como contador na administração da empresa no Campeche.
Mimi foi um dos que se ligou afetivamente aos pescadores e agricultores locais. Um dos filhos dele, por exemplo, visitou Manoel Rafael na década de 1950, relatando as saudades que todos sentiam dos velhos tempos. Em 1981 a esposa de outro funcionário da Latécoère, Jeanne Jacquinot, escreveu uma carta da França a uma amiga, recordando "a nossa mocidade no Campeche", destacando a falta que sente do clima daqui, diferente do frio europeu.
Os que permaneceram no Campeche também sentiram saudades dos que voltaram para a França. "Quando eu comecei a juntar documentos, recortes de jornais, fotos e outros documentos sobre a presença dos franceses no Campeche, e mostrei a meu pai, ele ficou tão emocionado que as lágrimas rolaram pelo rosto", conta Getúlio, que guarda importante relíquia daqueles tempos: um velho relógio Solvil, usado na administração da empresa, que ainda pode ser recuperado e posto a funcionar. (CM)








Primeiros aviões franceses aterrissaram em Florianópolis em 1924

A chegada ao Brasil de três aviões Bréguet-14 da companhia francesa Latécoère, em 1924, conduzidos pelos pilotos Vachet, Hamm e Lafay, deu início ao correio aéreo no Sul do continente americano. Eles realizaram um missão aérea pela costa brasileira, uruguaia e argentina, sondando pontos para futuras pistas de pouso. Pousaram em janeiro de 1925 no campo da Ressacada, em Florianópolis, onde foram recebidos por José Boiteux e o então tenente da Polícia Militar, Cantídio Régis, representando o governador Antônio Pereira Oliveira.
Os pilotos chegaram à Capital catarinense com os jornais do dia, editados no Rio de Janeiro, e que costumavam levar três a quatro dias para chegar nas mãos dos leitores daqui. Acompanhado da esposa, Vachet esteve na localidade de Pontal (atual Campeche), onde acertou a aquisição de um terreno por 10 contos de réis, equivalente a 2 mil francos franceses. Os 13 aeródromos construídos no Brasil ficaram prontos em 1928, entre eles o Adolpho Konder, no Campeche.
Nesse meio tempo a Latécoère saiu das mãos dos antigos sócios para as do grupo Boilloux-Lafont, passando a denominar-se Aéropostale, que optou pelo uso de um avião monoplano Laté-25, motor Rénault de 450 cv e autonomia de vôo de 650 quilômetros com um tanque de gasolina. Com o surgimento dos Laté-25, foram aposentados os Bréguet-14, usados na Primeira Guerra e depois adaptados para a aviação civil. Os Laté-25 foram substituídos pelos Laté-26, semelhantes ao anterior, mas dotados de aparelhos de rádio, fundamentais para os vôos noturnos.








Aventura

Para o piloto-escritor Saint-Exypéry, a grande aventura na América do Sul começaria efetivamente em 1929, ao ser nomeado diretor de exploração e tráfego da Aépostale Argentina, responsável por expandir as linhas da empresa na América do Sul. Com um Laté-26 ele alcançou a Patagônia ("terra onde as pedras voam") e abriu caminho para os deslocamentos aéreos entre Buenos Aires e Punta Arenas, no Chile, cruzando a cordilheira dos Andes.
No mesmo ano, pilotando um Laté-28, Saint-Exupéry deixou Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro, fazendo uma escala técnica em Pelotas, onde deixou o Laté-28 com defeito mecânico e seguiu com um Laté-26, mais antigo. "Na volta, provavelmente, Saint-Exupéry deixou-se levar pelo encanto da escala Campeche e aqui pernoitou", conta Márcia Barreto. Ele permaneceu em Buenos Aires entre 1929 a 1931, com freqüentes passagens pelo Campeche, segundo as recordações de Manoel Rafael. (CM)








Contato foi
além dos pescadores

A pesquisa complementar realizada por Márcia Barreto, com base nos levantamentos feitos por Getúlio Inácio, confirmou que Zé Perri manteve diversos contatos com pessoas de Florianópolis, além dos pescadores e agricultores do Campeche. O empresário Admar Gonzaga, por exemplo, "revelou ter conhecido os pilotos Saint-Exupéry e Jean Mermoz, nos raros momentos de estadia na Ilha", revela Márcia.
Então com 19 anos, Admar começou a trabalhar em 1925 como postalista do Departamento de Correios e Telégrafos de Florianópolis. "Como falava francês, matéria obrigatória no antigo Ginásio Catarinense, foi encarregado de levar e receber as malas postais internacionais ao campo de aviação. As constantes jornadas até o local estreitaram os laços de amizade com os funcionários da Aéropostale", assinala a jornalista.
A jornalista também conseguiu confirmar os contatos entre Saint-Exupéry e o professor positivista Mâncio Costa. "Quando de suas escalas na cidade, Exupéry tinha por hábito dirigir-se ao Centro da cidade para tomar uma 'rubiácea' no antigo Café Nacional da praça 15. Em uma de suas vindas, Mâncio Costa mostrou-lhe um exemplar raro que possuía da 5ª edição do Testament Politique du Cardinal du Richelieu, imprensa em Amsterdã, datado de 1696."
O empresário Charles Edgar Moritz manteve contatos com a equipe da Aépostale entre 1927 e 1928. "Na época ele tinha em torno de 15 anos e estudava no Ginásio Catarinense. Conforme relato de Moritz, Saint-Exupéry teria sido, anos depois, hóspede do Laporta Hotel. Era um bon vivant que gostava muito das festinhas no Lira Tênis Clube. Com 29 anos, Exupéry passava a imagem, segundo as palavras de Moritz, de jovem 'namorador, bonito e elegante', e compreendia muitas palavras em português."
Com 17 anos o coronel Juan Ganzo Fernandes, natural das Ilhas Canárias (Espanha), montou uma empresa telefônica no Uruguai. Em 1927, com 55 anos, foi convidado pelo governador Adolpho Konder para participar de concorrência pública para a implantação de serviços de telefonia no Estado, em 1930.
Filho do coronel, Juan Carlos ocupava o cargo de diretor técnico da empresa e "falava muito bem o francês". Por isso "ajudava com freqüência os funcionários da companhia de aviação", aproximando-se de Saint-Exupéry. Na década de 1950, quando foi realizado um leilão de material da Air France , Juan Carlos "comprou uma dúzia de holofotes usados na iluminação do campo, cujo valor sentimental lhe era inestimável". (CM)








"O Pequeno Príncipe", sua obra mais conhecida, é um dos livros mais traduzidos em todo o mundo

Antoine Jean Baptiste Marie Roger de Saint-Exupery, o Zé Perri do Campeche, nasceu no dia 29 de junho de 1900 na cidade francesa de Lyon, terceiro filho do visconde Jean e Marie Fonscolombe, apelidado de Tonio. Ele passou a infância entre os palácios de Saint Maurice de Remens (casa de um tio) e de Mole (casa da avó). Por insistência de seu avô Fernand, seguiu com o irmão François para um colégio jesuíta em Saint-Croix-du-Mans, logo após concluir os estudos preparatórios com as freiras das Ecoles Chrétiennes.
Seu batismo no ar ocorreu contra a vontade da mãe, em 1912, quando embarcou num Berthaud-Wroblewski, motor Labor de 70 cavalos, pilotado por Gabriel Wroblewski-Salvez. Estava com apenas 12 anos. Em 1917 sofre o primeiro grande impacto emocional, com a morte do irmão François, caindo num "mutismo doloroso". Nesse mesmo ano ele termina os estudos secundários, realiza os preparativos para a Escola Naval, em Paris, introduzindo-se no mundo das letras através de Yvonne de Lestrange.
Antoine acaba sendo reprovado no exame oral para ingresso na Escola Naval, conseguindo porém uma vaga como aluno assistente do curso de arquitetura da Escola de Belas Artes (Paris), onde pôde ganhar uns trocados fazendo pequenos trabalhos, como o de figurante em apresentações teatrais e outros. Corre o ano de 1919. Saint-Exupéry permanece dois anos nessa situação, até ser chamado para o serviço militar, quando se alista como simples soldado num regimento de aviação em Strasbourg.
Foi então que começou a ter aulas de pilotagem, cobrindo os gastos do curso com os ganhos no atelier da Escola de Belas Artes. Tonio aprendeu a pilotar com Robert Aéby, exercitando-se num Farmann F 40 e realizando o primeiro vôo num bimotor Sopwich F-CTEE. Após uma curta estada em Casablanca (atual Marrocos), para onde seguiu com o regimento de aviação, obteve o brevê de piloto no dia 23 de dezembro de 1921. Faltava, no entanto, o brevê de piloto militar, que ele vai conseguir depois de dominar os segredos de um Caudron G-3.








Acidente

Em janeiro de 1923 ele sofre o primeiro acidente, ocorrido em Bourget, saindo com numerosas e graves contusões. Tendo dado baixa do regimento, Saint-Exupéry é estimulado por um oficial a ingressar na força aérea francesa, mas recebe pressões contrárias da família, indo trabalhar numa fábrica de caminhões e depois ocupando-se em outras atividades remuneradas.
Em 1925 ele retoma os contatos com o universo intectual de Paris, ligando-se em especial ao editor Gaston Gallimard, responsável pela publicação das obras de André Gide, Jean Prévost e Jean Schlumberger e futuramente das do próprio Tonio. Prévost, redator da revista Le Navire d'Argent, pertencente a Adriene Monnier, foi quem o estimulou a escrever o primeiro texto, denominado "A evasão de Jacques Bernis", narrativa ambientada no mundo da aviação.
O ano de 1926 representa uma virada completa no cotidiano do piloto-escritor, pois é quando ele lança a primeira obra, "O Aviador", onde aborda situações que serão retomadas mais tarde em "Correio do Sul". Nesse ano ele obtém o brevê de piloto de transporte e estabelece relações com Beppo de Massini, fundador da companhia Latécoère, que o convidaria para pilotar aviões pela empresa.
Chamado ao aeroporto de Toulouse em 14 de dezembro por Massini, é apresentado ao chefe de exploração da empresa, Didier Daurat. Na mesma ocasião, conhece os pilotos Jean Mermoz e Henri Guillaumet, com que viajaria nos próximos meses na linha Toulouse-Casablanca-Dakar, os mesmos futuros parceiros das aventuras na América do Sul.
Depois do "Correio do Sul", lançado em 1929, romance sobre o amor impossível entre o aviador Bernis e uma mulher incapaz de partilhar sua exigência morais, Saint-Exupéry apareceu em 1931 com o famoso "Vôo Noturno", prefaciado por André Gide e ganhador do Prêmio Fémina. Em abril desse mesmo ano se casou com Consuelo Suncin.








Recorde

Em 1935, ao lado de Prévot, Saint-Exupéry tenta bater o recorde aéreo de cinco dias e quatro horas entre Paris (França) e Saigon (Vietnã), mas o avião é forçado a fazer uma aterrisagem em pleno deserto da Líbia. Os dois permanecem vários dias sob o sol escaldante, sendo finalmente recolhidos por uma caravana em trânsito, até o Cairo (Egito).
No ano seguinte (1936) teve uma experiência como jornalista, cobrindo os eventos da Guerra Civil Espanhola para os jornais franceses "Paris Soire" e "Intransigeant". Em 1938 ele tentou fazer a ligação aérea entre Nova York e a Terra do Fogo, correndo tudo bem na primeira etapa da viagem. Mas, ao chegar no aeroporto da Guatemala, o avião sofreu um acidente e Zé Perri ficou gravemente ferido. Permaneceu vários dias em coma e precisou de alguns meses em Nova York em recuperação.
"Terra dos Homens", publicado em 1939, recebe o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa, onde relata os primórdios do correio aéreo. Com o início da Segunda Guerra, ingressou no Exército de Libertação (resistência francesa), realizando vôos de reconhecimento sobre os territórios inimigos. A experiência foi relatada em "Piloto de Guerra", editado em 1942, muito lido nos Estados Unidos, mas não na França, onde os 2,1 mil exemplares foram retirados do mercado, por causa da apologia feita a um amigo, piloto judeu.
Em reposta à sugestão de seu editor americano para escrever um livro infantil, Saint-Exupéry elabora os originais de "O Pequeno Príncipe" (1943), a obra mais famosa do autor, uma das mais traduzidas em todo o mundo. No ano seguinte surge "Carta a um refém", mas Zé Perri não tem tempo de conhecer as repercussões do trabalho: a 31 de julho de 1944 levanta vôo de Borgo, na Córsega, sendo abatido pouco depois por um piloto inimigo (possvelmente alemão), quando estava sobre o Mediterrâneo. (CM)



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Obs. As lâmpadas (tratadas na matéria a seguir) que meu avô Juan Carlos comprou são iguais a esta da foto (uma delas).  Andei pesquisando sobre elas e o que descobri é que elas foram fabricadas aproximadamente em 1914, na França.