12 julho 2007

Juan Carlos Ganzo Fernandez - O Fim da CTC


Estive visitando o apartamento de minha avó esses dias. Sempre que vou lá sinto-me próximo dela, e vendo suas coisas levo-me a meus avós, suas vidas.

Abri uma pasta com o nome de meu avô impresso no lado de fora. Era a pasta que ele usava para guardar seus envelopes timbrados com seu nome ou da companhia telefônica catarinense e no meio destes papéis deparei-me com algumas cartas. Creio que essas poucas cartas tenham sido guardadas com muito carinho, saudades e talvez uma certa mágoa, por não poder ajudá-los com seu coração de ouro. Todas são de parentes seus, uruguaios. Há duas cartas de Electra Ganzo de Azpiróz, de Melo, Uruguay, solicitando a meu avô se há como conseguir um emprego ao futuro genro desta prima. Junto as cartas, um rascunho com as letras de meu avô da resposta à primeira carta. Como datam 1970 e 71, respectivamente, 2 e 3 anos após o encampamento da telefônica pelo governo do estado de Santa Catarina, percebe-se o mal estar que ocorre com meu avô. Muito triste... transcreverei aqui esta resposta:


Esta foto estava entre as cartas. Meu avô é o terceiro à direita. Foto de 1915 0u 16.



"Se tu carta hubiera llegado dos años antes, mi respuesta mediata seria: que venga, y ya, pero querida prima, hace casi dos años, el gobierno del Estado, nos sacó la Telefonica, nuestro trabajo de cuarenta y tantos años y nos dejó a todos poco menos que sin recursos puesto que hasta ahora no nos han pagado ni un vínten de lo estipulado por la compra que era de un millon y docientos y cincuenta mil dolares.
Por lo visto,...... que a esta altura de mi vida, estoy totalmente decrepito y desmemoriado, pues em piezas tu querida carta dicento que sos la hija de José Pedro, y que talvez no recuerde por que te vi muy chiquitita.
Quien que no fuera de nuestra familia de los Ganzos se podria llamar Electra? Edison, Franklin, Volt, Faradai etc etc?
Recien ahora para fin de mez receberemos el 20 % depues de 2 años. Esto te digo, para que veas que no tengo mas condiciones de prometer un empleo, y mucho menos a um futuro genro tuyo que declara ser bien remunerado."




Meu avô e toda sua família sofreu demais com a perda de sua Companhia Telefônica Catarinense. O fruto dos grandes empreendedores uruguaios, seu patrimônio gigantesco, de uma hora para outra, lhes é arrancado. Anos de suas vidas, seus sustentos, lhes são arrancados sem cerimônia. A Empresa que fundaram a pedido do então governador Adolfo Konder em 1927, é agora lhes retirada em seu auge. Compensação monetária? Nenhuma... apenas míseros cruzeiros.
E hoje, quando atender o telefone, saiba que os verdadeiros pioneiros da telefonia no Brasil foram estes senhores que a nossa sociedade não lembra mais. Coronel Juan Ganzo Fernandez e Juan Carlos Ganzo Fernandez, foram os grandes homens que nos proporcionaram acesso a esta tecnologia, aqui em Florianópolis e em toda Santa Catarina.

10 junho 2007

UM POUCO DA HISTÓRIA DE FLORIANÓPOLIS





Edição Nº 9 - julho de 2004





A Tragédia de Desterro


Numa das passagens mais sangrentas e aviltantes da história, a capital de Santa Catarina teve seu nome alterado de Desterro para Florianópolis


Numa das passagens mais sangrentas e aviltantes da história, a capital de Santa Catarina teve seu nome alterado de Desterro para Florianópolis. Encerrava-se a guerra civil em que a ilha sediou uma república independente, fundada por federalistas e rebeldes da Armada

Roberto Tonera, historiador e arquiteto
Desterro no início do século XX, com a Baía Sul à esquerda e Baía Norte, à direita, em tela de Eduardo Dias.

Em 16 de abril de 1894 chegava ao fim o revolucionário Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, que havia se insurgido numa guerra civil contra o governo central do marechal Floriano Peixoto.

Por seis meses, a cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, foi sede dessa república independente, formada pela união dos revolucionários federalistas dos três estados do sul do país com os também rebelados militares da Marinha Brasileira. Após a derrota, Desterro seria rebatizada como Florianópolis - em homenagem a Floriano - e dezenas de revoltosos seriam perseguidos, presos e sumariamente executados, em um dos capítulos mais sangrentos da história brasileira.

O episódio decisivo para o fim da revolta foi o combate naval travado na madrugada daquele 16 de abril, entre uma frota de 11 embarcações legalistas e o temido encouraçado Aquidaban. Líder da Revolta da Armada, como era então denominada a Marinha do Brasil, aquela embarcação representava o último elo de resistência contra o governo de Floriano. Passava das 11 horas da noite quando a frota legalista bombardeou a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, ao norte da cidade de Desterro.

AQUIDABAN

Fundeado um pouco ao sul da Fortaleza, o Aquidaban preparou-se para o combate. Às duas e meia da madrugada, o caça-torpedeira Gustavo Sampaio e outras três embarcações da frota legal iniciaram as manobras de ataque. O encouraçado só tomou conhecimento das torpedeiras inimigas quando distinguiu um vulto pela proa, a pouco mais de 200 metros. Ao reconhecê-las, o Aquidaban abriu fogo com seus poderosos canhões e suas metralhadoras. Porém, devido à proximidade do inimigo, os tiros dos canhões passaram alto, errando o alvo, e os disparos das metralhadoras causaram apenas um leve ferimento em um de seus oponentes.

As embarcações legalistas revidaram o ataque lançando três torpedos que, no entanto, também erraram o alvo. Vendo falhar os disparos, o Gustavo Sampaio deu a volta pela popa do adversário, lançando um quarto torpedo, desta vez atingindo de forma certeira a proa do Aquidaban. O impacto do torpedo foi bastante forte, alagando os compartimentos da proa. O Aquidaban ainda tentou seguir para mar aberto, mas teve de retornar para local mais raso, onde pôde descansar o casco no fundo.

O comandante e toda a sua tripulação logo abandonaram a embarcação avariada, buscando abrigo e retirada por terra. A utilização de torpedos em um combate naval só havia ocorrido em outras duas ocasiões, sendo aquela a primeira na história militar brasileira.

Naquela manhã de 16 de abril de 1894, o Aquidaban, a melhor embarcação da Marinha Brasileira, ia a pique e com ele a Revolução Federalista e a Revolta da Armada em Santa Catarina. Assim que em Desterro souberam do resultado do combate, os membros do governo revolucionário instalado na ilha catarinense fugiram para o continente. No dia 19 de abril, chegaria à cidade o coronel Antonio Moreira César, promovendo um sangrento "ajuste de contas" com os revoltosos vencidos.

O AUTORITARISMO DE FLORIANO

As causas desse turbilhão de acontecimentos, no entanto, começaram a fermentar alguns anos antes, com a Proclamação da República, em 1889. No Império, o poder militar do país concentrava-se na monarquista e nobiliárquica Marinha de Guerra. Com o novo regime, essa hegemonia transferiu-se para o Exército, composto em boa parte pela pequena burguesia.

Desde 1891 no comando da República, após a renúncia forçada de Deodoro da Fonseca, o vice-presidente Floriano Peixoto tomara uma série de medidas autoritárias: demitira governadores, aposentara e rebaixara militares, intimidara o poder judiciário e censurara a imprensa. As forças econômicas e políticas do sul do Brasil, por sua vez, continuavam se sentindo preteridas no cenário nacional. Existiam ainda os monarquistas, saudosos do antigo regime, e até republicanos e positivistas descontentes com os rumos militaristas assumidos pela República.

O repúdio aos atos de centralismo e autoritarismo praticados pelo governo era quase uma unanimidade nacional, unindo várias insatisfações políticas, militares e econômicas contra o governo ditatorial de Floriano.

Esse clima de tensão imperava no país quando, em 2 de fevereiro de 1893, iniciou-se no Rio Grande do Sul a Revolução Federalista, alguns dias depois da eleição, escandalosamente fraudulenta, de Júlio de Castilhos à presidência do estado. Em um dos lados, estavam os federalistas, também chamados "maragatos". Liderados por Silveira Martins, tinham Gumercindo Saraiva como seu verdadeiro chefe militar. Já os castilhistas, conhecidos como "pica-paus", contavam com o apoio de Floriano. A guerra civil espalhou-se pelos três estados do sul, perdurou por 31 meses e foi marcada por atrocidades contra civis e militares.

As "sangras" ou degolas, e os fuzilamentos - execuções sumárias praticadas com requintes de crueldade por ambos os lados - vitimaram aproximadamente 10 mil pessoas, mortandade sem paralelo na história do Brasil.

Por sua vez, no Rio de Janeiro, o almirante Custódio José de Melo, ex-ministro da Marinha, descontente com os atos de Floriano, e contando com o apoio de monarquistas e partidários de Deodoro, exigiu a renúncia do vice-presidente. Como o marechal não cedeu, parte da esquadra sob a liderança de Custódio de Melo rebelou-se, bombardeando a capital federal, em 6 de setembro de 1893, e dando início à Revolta da Armada. Logo depois, seguiu para o sul do país uma força-tarefa rebelde sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena.

A intenção era estabelecer contato com as tropas federalistas que também se batiam contra o governo da União. Protegida pelo costado do encouraçado Aquidaban, a frota do comandante Lorena escapou da baía de Guanabara sob o fogo das fortalezas de Santa Cruz, São João e Lage, chegando à Ilha de Santa Catarina em 26 de setembro.
A decisão do comandante Lorena de seguir para Desterro, mesmo sem ordens superiores expressas para isso, é creditada ao fato de o governo estadual haver já se declarado contrário a Floriano. Outro motivo seria a posição estratégica da Ilha de Santa Catarina, porto abrigado e próximo aos conflitos do sul. O fato de Lorena ter passado a maior parte de sua infância em Desterro deve também ter pesado nessa decisão, que em breve selaria de forma drástica o seu próprio destino e o da cidade na qual crescera.

UMA NOVA REPÚBLICA NO SUL

Embora o governo civil de Santa Catarina fosse simpático aos federalistas, a Guarnição Militar permanecia fiel a Floriano. Assim, na manhã do dia 27 de setembro, os disparos da artilharia legalista, que havia se deslocado para o norte da Ilha de Santa Catarina, fizeram a frota rebelde recuar. Contornando a ilha e entrando pela baía sul a bordo do cruzador República, Lorena fundeou sua força-tarefa em frente à cidade de Desterro, de onde intimou a resistência legalista à rendição.

Com exceção do pequeno Forte de Santana, que contava com dois canhões Krupp, e a Capitania dos Portos, com um canhão Bange, as demais fortificações estavam guarnecidas apenas com o velho armamento do século XVIII, sem eficiência contra os modernos canhões das embarcações rebeldes. O comandante do Forte de Santana ainda fez reunir diversos canhões de ferro fundido, imprestáveis, que jaziam havia anos enterrados pela metade, enfeitando os logradouros públicos da cidade. Era uma tentativa desesperada de simular um poderio bélico de que não dispunha.

Mesmo inferiorizado, Santana trocou tiros com o cruzador República, que, fora do alcance daquela precária munição, bombardeou o forte com eficácia, forçando-o a um imediato cessar-fogo. No dia 29, reuniram-se 46 oficiais de diferentes patentes do Exército e da Armada que se achavam no Desterro. Assinaram os amistosos e honrosos termos do acordo de rendição da guarnição do Desterro. Aquele documento seria, posteriormente, a sentença de morte de muitos daqueles oficiais, fuzilados em Anhatomirim no ano seguinte.

A pacata cidade de Desterro, agora em poder dos revoltosos da Armada, seria proclamada capital daquela nova república. Em 14 de outubro de 1893, na frente do Palácio do Governo do Estado, o comandante Frederico de Lorena declarou instalado o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. O novo governo considerava-se separado da União, enquanto Floriano Peixoto não fosse deposto. Esse Governo Provisório almejava unir os rebeldes da Armada aos federalistas do Sul, com o objetivo comum de derrubar Floriano. Pretendia também justificar, perante outras nações, a solicitação do reconhecimento do estado de beligerância. Isso as obrigaria à neutralidade, impedindo o livre fornecimento de armas e munições ao governo legal.

Pouco tempo depois, essa suposta unidade se mostraria extremamente frágil e começaram a aflorar os desentendimentos entre os líderes da Revolta da Armada e os federalistas, em luta no Paraná e no Rio Grande do Sul. Estes últimos, na verdade, nunca se consideraram parte efetiva daquele militarizado Governo Provisório.
As várias correntes de pensamento, contrárias ao Governo Central, careciam de uma unidade ideológica, compondo um amálgama de interesses muitas vezes conflitantes. Eram separatistas, federalistas, republicanos "históricos" preteridos no poder, parlamentaristas, positivistas, militaristas, civilistas e monarquistas.

Junte-se a isso o surgimento de disputas por poder, conflitos entre lideranças locais, vaidades e ambições pessoais e políticas, além da falta de recursos para financiar a revolução. Esse conjunto de causas levou à desintegração do sonho de um governo revolucionário único. Na realidade, a oposição a Floriano era talvez o único ponto de convergência entre esses vários ideais. Fora motivo bastante para deflagrar uma revolta, mas insuficiente para sustentar um movimento coeso.

Em março de 1894, Frederico de Lorena entregou o Governo Provisório para uma junta governativa, e Floriano Peixoto conseguiu reorganizar suas forças navais e retomar o porto do Rio de Janeiro. Ingenuamente, os revoltosos consideravam a queda do marechal apenas uma questão de tempo. Por isso, menosprezaram a aquisição das novas embarcações européias e americanas pelo Governo Central, denominando jocosamente a frota florianista de "esquadra de papelão".

Com o insucesso da tomada de Rio Grande por Custódio de Melo, e a posterior entrega dos navios da frota rebelde ao governo argentino, ficaram em Desterro apenas o encouraçado Aquidaban e mais três pequenos vapores. Todos sob a frágil proteção das fortalezas da barra. Foi quando a esquadra legal partiu do Rio de Janeiro para a retomada do Sul.

Com a derrota do navio rebelde Aquidaban, no combate de 16 de abril de 1894, o movimento foi debelado em Santa Catarina e Desterro, retomada pelas tropas federais. Braço direito de Floriano Peixoto, o temido coronel Antônio Moreira César - cuja perversidade lhe valeria o apelido de corta-cabeças - chegou à cidade no dia 19. Com a função de delegado do governo federal, assumiu o governo militar do estado no dia 22 de abril. Chefiando com mão de ferro as forças de intervenção em Santa Catarina, e contando com o revanchismo das lideranças republicanas locais, Moreira César iniciou uma violenta represália aos vencidos. Tão sangrenta como foram as degolas praticadas no Rio Grande do Sul e no Paraná pelos dois lados em luta.

Na caça aos revoltosos, ele e seus auxiliares praticaram saques, estupros, incêndios e morticínio de cidadãos indefesos. Foi um tempo de terror, silêncio e traições, quando foram utilizadas as mais cruéis formas de coação e tortura. A fortaleza de Anhatomirim foi o principal palco desses acontecimentos, servindo de prisão e local de massacre para dezenas de revoltosos, que lá foram sumariamente fuzilados.
Um contemporâneo daqueles dias de violenta repressão aos federalistas foi o escritor e jornalista Duarte Schutel, que registrou: "Encheu-se de presos tudo o que podia servir de prisão.

Os calabouços e solitárias da cadeia comum, as salas da Câmara, o Quartel de Polícia, o de Linha e até o Teatro, tudo foi pouco, e foi preciso remeter para os navios de guerra os presos à medida que se enchia uma prisão, para fazer lugar aos que chegavam. Esses que embarcam levam destino da Fortaleza de Santa Cruz; deles bem poucos voltaram (...) o maior número, os outros, nunca mais regressaram dessa viagem porque uns não chegaram e muitos ali jazem para sempre (...). A capital catarinense viveu dias de terror, com a população temendo sair às ruas. O silêncio, o recolhimento, o andar soturno dos habitantes horrorizados faziam contraste lúgubre com a algazarra e o desmando, com as petulantes maneiras e sinistras ameaças dos selvagens soldados, que enchiam as ruas e praças".

Os prisioneiros eram encaminhados à Anhatomirim e ficavam encarcerados nos calabouços no Paiol da Pólvora, na Casa do Comandante e no Quartel da Tropa. A recomendação de Moreira César ao comandante da Fortaleza para pô-los "em prisão segura" era uma senha previamente combinada para os fuzilamentos. As execuções foram comunicadas a Floriano em telegrama de 8 de maio de 1894, que dizia: "Marechal Floriano - Rio - Romualdo, Caldeira, Freitas e outros, fuzilados segundo vossas ordens - Antônio Moreira César". No entanto, nunca se conseguiu de fato provar a autenticidade desse telegrama.

Embora não se conheça o local exato das execuções, a Árvore dos Enforcados, um velho araçazeiro localizado no lado sudeste da ilha, teria sido, segundo a tradição oral, o local do enforcamento e fuzilamento de dezenas de prisioneiros. Ao contrário do fuzilamento, o enforcamento era considerado uma morte sem honra, destinada a criminosos comuns. O "ajuste de contas" de Moreira César promoveu prisões e execuções sumárias, atingindo tanto militares quanto civis, sem nenhum tipo de julgamento ou processo.

Por isso, o número exato de mortos nunca pôde ser levantado. Dentre as vítimas chacinadas na fortaleza constam o barão de Batovi, herói da Guerra do Paraguai, vários outros oficiais que haviam assinado a ata de rendição de Desterro e Frederico Guilherme de Lorena, presidente do Governo Provisório. Dependendo do historiador consultado, o número de mortos oscila entre 34 e 185 vítimas.

Muitos foram sepultados numa área gramada, no alto da Ilha de Anhatomirim, próximo ao farolete ainda existente na fortaleza. Outros podem ter sido jogados ao mar ou enterrados em covas rasas em algumas praias do continente em frente à fortaleza. Em 1913, os restos mortais de alguns dos fuzilados em Anhatomirim foram trazidos para o cemitério de Florianópolis e, em 1934, transladados para o Rio de Janeiro. Na lista de vítimas, encaminhada ao Ministério da Marinha pelo capitão dos portos Lucas Boiteux, constavam 43 nomes. No entanto, nunca foi revelada a fonte em que se baseou esta lista.

A culpa desse massacre não pode recair única e exclusivamente sobre Moreira César e seus principais auxiliares diretos, nem mesmo apenas sobre Floriano, mandatário maior do país. Ela deve ser compartilhada também com a classe política local e as demais instituições organizadas da época. Quando não compactuaram diretamente com os atos sanguinários de Moreira César, foram, na melhor hipótese, inertes e omissas aos seus desmandos arbitrários.

HOMENAGEM OU BAJULAÇÃO

Como golpe final na revolução, a cidade de Desterro mudaria seu nome para Florianópolis, numa controversa homenagem a Floriano Peixoto. Na verdade, o nome "Desterro" não agradava aos habitantes locais. Tanto que, em 1888, apresentara-se, na Assembléia Provincial, uma sugestão para que "Ondina" fosse adotado como novo nome da cidade, sem obter, no entanto, maioria para aprovação. Em 1892, Virgílio Várzea reapresentou o mesmo projeto, que não chegou a ser votado.

Outras denominações foram ainda propostas à época: Nossa Senhora da Baía Dupla, Boa Vista, Ponta Alegre e Redenção, entre outros. Finda a revolução, coube ao desembargador Vidal Capistrano, liderando os republicanos catarinenses, propor a mudança do nome para "Florianópolis", num ato público em 17 de maio de 1894.

Levado à consideração de Moreira César, o assunto foi entendido como de competência do Congresso Legislativo, pois sendo delegado do governo da União, tinha escrúpulos de decretar "o que tanto se almejava, para não passar o menor vislumbre de dúvida sobre a manifestação espontânea do povo". A proposta foi aprovada por unanimidade pelo Legislativo e efetivada pela Lei no 111, de 1o de outubro de 1894, sancionada já pelo novo governador, Hercílio Luz. O artigo primeiro da lei trazia a sucinta redação: "A actual Capital do Estado fica, desde já, denominada Florianópolis".

Como vemos, a mudança do nome da cidade ocorreu, não por imposição direta de Floriano ou Moreira César, mas por uma decisão consciente e soberana das elites políticas catarinenses - apesar de duvidosamente democrática, em função do clima de "caça às bruxas" ainda vigente naqueles meses.

Pode-se discutir se as motivações dessa mudança de nome se explicam pelas intenções bajulatórias e apressadas para homenagear a figura do dito "consolidador da República", ou pela necessidade de abrandar a sede de vingança de Moreira César, ou mesmo apenas pelo sádico prazer de eternizar naquele topônimo o golpe final sobre os federalistas vencidos. Independentemente de tomar partido daqueles que hoje defendem aquele batismo como uma homenagem consolidada, merecida ou não, ou daqueles que o refutam como uma humilhação, a ser ainda reparada, o que importa, sem dúvida, é ter consciência e clareza histórica dos fatos que culminaram naqueles acontecimentos.

TORPEDOS UTILIZADOS PELA PRIMEIRA VEZ NO BRASIL

O uso de torpedos em combate havia ocorrido somente na Guerra da Criméia, em 1854, e na Revolta Chilena, em 1891. Foram utilizados com êxito pela terceira vez na história do mundo e primeira no Brasil - no combate naval travado ao largo da Fortaleza de Anhatomirim, na baía norte da Ilha de Santa Catarina. Entre os quatro torpedos de 135 milímetros disparados pela esquadra legalista do marechal Floriano Peixoto, todos do modelo B-57, de fabricação alemã, três deles não atingiram o encouraçado Aquidaban nem nenhum outro alvo. Um desses artefatos foi encontrado por pescadores há alguns anos e levado para o Museu Naval da Marinha, no Rio de Janeiro, onde se encontra até hoje exposto no pátio daquela instituição. Dois outros torpedos ainda permanecem no fundo do mar, em Santa Catarina, à espera de um resgate arqueológico.

AS MELHORES EMBARCAÇÕES DA ARMADA BRASILEIRA
As duas embarcações mais notáveis da Armada, como era chamada no século XIX a Marinha Brasileira, lutaram em lados opostos durante a revolta de 1893/1894. O caça-torpedeira Gustavo Sampaio, fabricado em aço pelos ingleses, em 1893, era o melhor navio adquirido pela esquadra legal. Pesava aproximadamente 498 toneladas, media em torno de 62 metros de comprimento, chegando a desenvolver velocidade de 18 nós. Era armado com dois canhões de 120 milímetros, e outros quatro de 47 milímetros. Possuía ainda três tubos lança-torpedos de 135 milímetros. O encouraçado Aquidaban, também fabricado em aço, foi adquirido da Inglaterra em 1886. Era a principal embarcação da Marinha quando liderou a frota revoltosa contra o governo de Floriano Peixoto. Pesava aproximadamente 5 mil toneladas, media em torno de 93 metros de comprimento por 17 metros de largura, chegando a desenvolver velocidade de 16 nós. Era armado com oito canhões de 225 e 140 milímetros, 11 metralhadoras de 25 milímetros, outras cinco de 11 milímetros, além de cinco tubos lança-torpedos. Depois de ir a pique no combate de abril de 1894, ocorrido junto à Fortaleza de Anhatomirim, em Santa Catarina, o Aquidaban seria recuperado e reformado na Alemanha e Inglaterra. Em janeiro de 1906, explodiria acidentalmente numa missão de rotina, naufragando na Ponta da Jacuacanga, em Angra dos Reis (RJ), e levando 112 pessoas à morte.

PARA SABER MAIS
CALDAS, Cândido. História Militar da Ilha de Santa Catarina: Notas. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1992.
MARTINS, Hélio Leôncio. História Naval Brasileira: quinto volume, Tomo IA. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha/Serviço de Documentação da Marinha, 1995.
SCHUTEL, Duarte Paranhos. A República Vista do Meu Canto. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 2002.
TONERA, Roberto. Fortalezas Multimídia. Florianópolis: Editora da UFSC, Projeto Fortalezas Multimídia, 2001 (CD-ROM).





Obs. Hoje, vasculhando a internet em busca de assuntos interessantes para ler, deparei-me com esta matéria. Sei que nada tem haver com a nossa família, mas como é a terra que meu avô escolheu para amar, nada mais justo do que ensinar e aprender sobre esta maravilhosa terra.

17 maio 2007

Nossa luta de cada dia

Juan Ganzo Fernandez ao centro, ladeado por seus fiéis escudeiros da Cia. Telefônica Rio Grandense. Meados de 1920. Sr. Oscar Germano Pedreira sentado na extrema direita.


Mais um dia de nossas vidas... o mundo girando, o tempo passando...
Ontem, em mais uma tentativa de resolver meus problemas, fui novamente à luta, mas desta vez, sem deixar de levar minha aliada... minha esposa, Giovana. Não dá pra imaginar o conforto que foi vê-la me fazendo companhia. Faz muito tempo que venho lutando para conseguir minha licença de publicidade, mais precisamente 4 anos. Já havia me desiludido tanto que praticamente não mais tentava alguma coisa. Precisei pedir para minha companheira me ajudar... e não é que, ao que parece, a coisa se caminha para um desfecho feliz? Coincidência ou não, ontem foi uma tarde de boas notícias... tirando algumas pendências ainda por resolver, descobrimos que meu pedido foi deferido! Num mar de corrupção, de más notícias, isto é uma um alento. Tomara Deus que dê certo. Estou fazendo planos... nunca é tarde pra sonhar!
E nestas horas, lembro de meus avós que lutaram uma luta desigual contra o poder público. Grandes empreendedores, pessoas de visão futurísticas que no Brasil venceram e acabaram por serem vencidos. A derrota amarga, destruidora de seus ânimos, de sua ânsia de viver... e sempre subjugados por aqueles que deveriam tê-los defendido. É muito triste saber que muitas das empresas destes valorosos cidadãos foram parar na mãos dos políticos corruptos, dos empresários fascínoras, de pessoas sem escrúpulos. Ipiranga Petróleo, Cia. TelefônicaRiograndense, Cia. Telefônica Catarinense... são apenas alguns exemplos de empreendimentos bem sucedidos que foram surrupiados pelas mazelas do estado brasileiro.
O que tento explanar aqui, é que, mesmo pensando no sustento de minha família, sem em momento algum, imaginar ficar rico ou passar por cima de alguma lei ou pessoa, tenho encontrado sérias dificuldades... e ao que tudo indica, por interesses alheios aos meus. Propina, corrupção, concorrência??? Sei lá, algo tão simples e ao mesmo tempo, muitíssimo difícil!
Bola pra frente... alguns dias mais... talvez semanas, meses... mas ainda terei minha empresa e que se Deus quiser, obtenha sucesso! É para isto que vou lutar! Minha esposa, meus filhos, minha família... todos torcem por mim!!! E eu também, afinal, temos que honrar nossa tradição empresarial e de todas as formas, lutar contra os maus-caráters da administração pública. Nossos pais, avós, bisavós agradecem.
E amanhã será um novo dia... cheio de alegria e amor!

13 maio 2007

Oscar Germano Pedreira

Juan Ganzo Fernandez sentado à esquerda e Oscar Germano Pedreira em pé, de óculos.


Há alguns dias, me escreveu Marta Pedreira Ghezzi. Contou-me ela que seu avô, Oscar Germano Pedreira foi muito amigo de meu bisavô, Juan Ganzo Fernandez.
Marta está resgatando a história de seu avô e assim, em suas pesquisas, acabou por encontrar este meu blog.
Que interessante... os encontros da família há muito separada no tempo e no espaço, os amigos de nossos avós... suas histórias, fotos, cartas... é maravilhoso poder compartilhar destas emoções.
Obrigado Marta, muito obrigado!




Oscar Germano Pedreira


Oscar Germano Pedreira nasceu em Uruguaiana no dia 27 de março de 1887. Era o terceiro filho do casal Joaquim Maria Pedreira Junior e Orosia Altina Germano Pedreira.

Na infância viveu em Jaguarão e depois em Melo, no Uruguai, quando o pai era vice-cônsul do Brasil.

É provável que tenha chegado a Porto Alegre no final de 1908 ou no início de 1909, já empregado na Companhia Telephonica Rio Grandense, cujo principal acionista (ou um dos principais) era o Coronel Juan Ganzo Fernandez, que ele conhecera em Melo.

Nesse ano prestou exames para o ingresso na escola de Engenharia, iniciando o curso no ano seguinte.

Devido ao cargo de grande responsabilidade que exerceu, desde o início, na Telephonica, onde era o principal executivo, não podia cursar todas as disciplinas previstas para cada semestre, vindo a concluir o curso somente no ano de 1917.

Em 1918 casou-se com Marietta Mello, filha do comerciante Alfredo Gomes de Mello e de sua mulher, Annita (Anna Emilia) Fagundes de Mello.

O casal teve cinco filhos: Maria, Dora Rachel, Joaquim Alfredo, Anna Luiza e Beatriz (que morreu um mês depois de seu primeiro aniversário).

Oscar dedicou toda sua vida profissional à Telephonica Rio Grandense, permanecendo naquela Companhia mesmo depois que a empresa americana International Telephone and Telegraph Corporation (ITTC) assumiu o controle acionário, em 1927. Morreu no dia 22 de julho de 1949, com a idade de 62 anos, quando se encontrava a serviço, no Rio de Janeiro, em conseqüência de um infarto.

Era profundamente admirado por todos que o conheciam, pela dedicação à familia e ao trabalho, por sua generosidade e pela firmeza de seu caráter. No santinho que, como era costume na época, foi distribuído durante a missa celebrada no sétimo dia de sua morte, constam estes dizeres: “Ele foi perfeito em todos os atos de sua vida. Era a creatura que todos nós admiravamos, aquela com quem desejariamos nos parecer.”

11 maio 2007

A História do Telefone - Jornal "A Noite" 15-04-1947

A História do Telefone


Não vamos falar de Alexandre Graan Bell. Embora mereça a nossa reverência, é figura que está muito para trás. Não estamos aqui como Prometeu, em cima do rochedo, olhando para o fantasma do passado... Vamos falar do Sr. João Ganzo Fernandez, uma das figuras empreendedoras e que tanto tem contribuído para o progresso do Brasil. Desses homens que se pode apontá-lo e dizer: "é desses que constroem o mundo". Foi o Sr. João Ganzo Fernandez que, em 1908, fundou no Estado do Rio Grande do Sul a Companhia Telefônica. A êle também coube, em 1920, o privilégio de montar na capital gaúcha a primeira estação telefônica automática, que seria, como afirmam vozes autorizadas, a primeira etapa do telefone automático no Brasil e na América do Sul. Já em 1927, o Sr. João Ganzo Fernandez, que ama o trabalho, que se enternece ante qualquer realização, lança as diretrizes da Companhia Telefônica Catarinense, que tantos benefícios presta ao Estado. Hoje, em quase todo território de Santa Catarina, em 29 localidades, os fios da Telefônica Catarinense cruzam os seus postes estão fincados como mastros de bandeiras do progresso.



Autor desconhecido.